quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Mirtilo




Resultado de imagem para mirtilo planta

Tecido de sons  doce-ácidos
Roxo como mãos doridas 
Nobre de  céus tempestuosos
Bosque selvagem onde amanhecem 
Os corpos dos amantes - ar puro
De àvidos olhos à flor do dia
Pensamentos navegando rio acima
Até à fresca  nascente
Vive-nos 
Como se abríssemos os olhos
Sem os tentar fechar
Leva-nos 
Como castelos onde  brotam  viçosos
Árduos corações abraçando o destino
Inelutável no festim da vida

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

em cada manhã


revejo os sonhos
se pesadelos só sonhos
se momentos de felicidade
apenas interrompidos
por pausas de reflexão circunstancial
realidade
onde há uma verdade 
subdividida 
em muitas 
reunidas eclodem 
numa verdade maior
como o calor das brasas
da lenha consumida
que se transforma em cinza 
muito macia e leve 
desvanece tudo o que é
verdade toda estranha
realidade cinzenta
se só pode ser cinza
ao menos que seja cinza feliz.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

ficção

Tudo no mundo é ficção, sustento ou fundamento dela. Nada existe para além disto. Palavra, pensamento, imagem, sonho, perceção. Quando fecho os olhos nenhuma imagem mais existe para além de tudo o que apanhei na minha rede. Sou sem querer, um pescador incansável, pesco incessantemente e tal como qualquer pescador, passo a maior parte do meu tempo a remendar as redes. Posso parecer idealista, mas a realidade só o é a partir do momento em que há sentido, sonho ou pensamento. A música que oiço é uma ressonância de todas as músicas que já escutei e por isso me leva a um estado de emergência existencial. O que é válido para a música é válido para os seres vivos, animais ou vegetais, para as pessoas em todas as suas idiossincrasias, para todos os livros que li ou debiquei, para todas as paisagens, temperaturas e sensações que já experimentei. Toda a imensa realidade que me rodeia e me atravessa, na maior parte do tempo sem eu dar por isso, me impele para o sonho e para a vigília, sempre aí remendando a rede, que com o tempo se vai rasgando, consoante os peixes que por lá passam e as águas mais doces ou mais salgadas, mais calmas ou mais revoltas, mais puras ou impuras que a atravessam. A inexorável intromissão de outros pescadores com outras redes no meu ser de pescador e no meu ser de rede, muitas vezes emaranhada, é o sentido da vida. Este combate permanente de peixe em águas salobras é o limpa-para-brisas da consciência, é a barreira entre mim e o mundo que se oferece para ser perfurada e se aproximar estruturalmente de uma malha tecida que deixa passar uns peixes e não outros e ao mesmo tempo se mantém viva, ainda que em metamorfose, porque só assim pode ser rede sem o parecer e enganar o enganador. Qual o peixe que mais se realiza enquanto peixe? Aquele que é apanhado pelas malhas da rede ou o que, incauto, toma o anzol por alimento? Como responder a estas perguntas sem deixar de ser pescador? Peixe uma vez, peixe para sempre. Com certeza será bem melhor ser peixe no mar bem alto, lá longe das redes e dos anzóis, onde o sol se põe, no horizonte do fim do mundo onde não há terra, só mar e mar. Lá a vida sorri porque o sorriso da vida é o sorrir dos outros peixes que nadam nas mesmas águas, sendo que alguns, não se contentando só em nadar, também querem voar e se fazem voadores, por isso podem ser comidos pelas aves piscívoras. E aí, santo deus, como se a natureza das coisas não estivesse bem, desenvolve-se a nação dos peixes como se homens fossem. Então talvez valha mais ser apenas um simples pescador do que peixe que não se contenta em ser um vivente das águas.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Petrushka



Irises-Vincent van Gogh.jpg

Vincent van Gogh, maio 1889
óleo sobre tela - 71 cm × 93 cm

despertou-me a manhã gélida 
no meio de um sonho 
entre lírios azuis e jardim de delícias
sob o intenso brilho do sol
bailávamos assim, leves leves
com a música nossa amiga, Petrushka
que coisa boa este acordar e sonhar
arte na ponta dos dedos finos
nas meninas dos olhos de cílios brilhantes
no andar verde das ondas do mar
que tecem a tela do caminho
que sobe e desce 
e a gente cresce e aparece
como no carrossel da feira popular
onde baloiça o amor a rodar a rodar...


Hieronymus Bosch, 1504

óleo sobre madeira - 220 cm  × 389 cm

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Só 
Como rio que desagua no deserto
Gemendo em surdina 
Respirando fome, frio e morte
Duna gélida trespassada pela lâmina doirada
De feridas expostas na consciência
Universo por que me consumo
Noite adentro, dias  afora, anos a fio
À procura do nada que me atormenta
Me puxa, me fala, me canta e me adormece
Ó criança de mim, mais infante, crédula
Impiedosa, apaixonada e risonha
Onde ficaste quando trocavas figos por tostões
E distribuías amêndoas de casca dura
Pelo sorriso dos outros e pela promessa
Da morte fingida num jogo de índios e cóbois
Como era tudo tão direto e sem pensamento
Deitado no feno contava as histórias
Inscritas nas nuvens pelo vento varridas
Devagarinho no murmúrio das águas límpidas.

sábado, 21 de novembro de 2015

a soma das partes

Em dias escuros onde se esconde o sol atrás das nuvens  tocamos os dedos e todos os fantasmas desaparecem. Às vezes sinto no estômago a crueza das horas e a ágil manha do mundo que desconheço quase totalmente. Não sou deus e ainda bem, sou mais eu partido em pedaços que comunicam uns com os outros em todo o tempo. Não sei a finalidade da minha existência nem a dos outros e tão pouco se se preocupam com isso. Sorte a deles se forem felizes assim. Trago em mim vários eus como provavelmente quase toda a gente. Não acho que os outros sejam assim tão diferentes de mim, afinal partilhamos noventa e nove vírgula nove por cento do código genético. Se sou racista ou preconceituoso, sou-o de mim mesmo. Não sei se sou bom ou mau, a maldade e a bondade estão para além da esfera da minha vida transcendental, estão quando muito, na imagem que transmito aos outros pelo facto de existir e ser material. Não pedi para nascer, tal como ninguém pediu, fui lançado no mundo, e a cada dia a responsabilidade de me erguer e continuar ou não o caminho, é toda minha. Não sou perfeito nem  quero ser, por saber de antemão que tal é impossível, sou feito de matéria corruptível e, tal como qualquer criatura viva, aproximo-me cada vez mais da meta que levará à fixação de mim mesmo, à minha existência absoluta. Quando saio de casa a qualquer hora do dia, as pedras da calçada empurram-me contra os meus pés tal como a todo e qualquer um. Sinto-me por isso tratado pelas leis do mundo, as da natureza, as outras todas são ficção e provisórias, com toda a justiça possível. Não sei se poderíamos viver num mundo mais elegante ou mais belo. Este em que vivo já tem tanta beleza que o tempo da minha vida não me permite percorrê-la, teria de ler todos os bons livros, percorrer todas as aldeias de todo o mundo, conhecer todas as boas pessoas, ouvir todas as boas músicas e ver todos os bons filmes. Sei que este mundo apesar de conter imensa beleza, me permite, ainda assim, sonhar utopias. Mas estas, penso eu, são apenas imagens construídas pelas células do meu cérebro e nada mais que isso. Por isso as minhas utopias apenas estão em mim, embora as possa partilhar, muito parcialmente, com os outros, caso eles tenham por mim algum respeito e para mim algum tempo. A minha vida é só minha e de mais ninguém, sou como um lobo solitário que se perdeu em pensamentos e deu por si longe da alcateia. Só lhe resta a lua, os caminhos pedregosos e o vento para transportar os seus uivos. Vivo dentro da minha pele tal como me ensinaram os professores de ciências naturais. Mas mesmo assim, às vezes sinto frio dentro do meu corpo e até na consciência. Talvez sejam os conselhos dos outros para manter a cabeça fria e não agir a quente, como se eu não fosse um animal de sangue quente. Todos o somos, e por isso há alguns, tal como os vampiros, que têm necessidade de sentir, não o próprio, mas o dos outros, numa atitude de identificação com a humanidade. Isto é ser humanista. Querer identificar-se no sangue vermelho, porque o que interessa no sangue é a cor e a temperatura, talvez o sabor seja importante para alguém, é querer ser deus, mas não um deus qualquer, um deus-mundo senhor de si próprio e de todas as suas partes que formam uma unidade absolutamente coesa e inquebrantável. Tal como Espinosa e talvez o Caeiro de Pessoa. Esse deus, ou como quer que lhe chamemos, é indubitável. Existe mesmo, não podemos pôr em causa a nossa existência sob pena de estarmos a delirar, depois de tudo o que se passou na história da literatura filosófica. Como parte ínfima do mundo que sou, seria demasiada petulância querer-me subtrair ao mundo, que sem mim também não existiria. Afinal o todo é sempre a soma das partes.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

música

música minha amada
levas-me para longe da pátria
subo ao cume do K2 dos himalaias
danço no gelo da antártida
reencarno anjos e demónios
ódio destilado dos antepassados
viajo ao reino dos mortos
e encaro a sua sofreguidão
de injustiça inalcançável
mundo excessivamente justo
denso de equilíbrios
nada se perde, nada se cria
como as balanças doiradas
dos cristais da boémia no chão estilhaçados
explicação que brilha
então, tudo bem? mais uma semaninha
de trabalho, pois claro, temos de nos aguentar
o tempo passa-se num instante, vê lá
quantos cabelos brancos, quantas rugas
é a vida, pois claro, é a vida, é o tempo
a passar por nós, urge e ruge
bailamos como papoilas ao luar dos ventos
tão lindo, ânsia de chorar
poema de infância de pessoa, cascas de ovo a abrir
dores de dentes ao estalar do marfim
esquecemos o calor da lareira do inverno passado
lembramos repetidamente que a sorte está ali, está ali
ao cruzar da esquina, logo ali, no quiosque da avenida
onde há fila para a busca da felicidade
encontrei-te, não me fujas mesmo que não me queiras
meu amigo, em ti está a noite de  luar e a voz da terra com toda a música
vibra, obriga a respirar as trevas do deslumbramento
durmo acordado, sonho dormindo na inconsciência do nada
talvez as mãos sejam sonhos ou desejos realizados
sempre incompletos como infinitas melodias
música, minha música, orai para que não se rompam os tímpanos
nem se oblitere a elétrica corrente que ressoa para além do nervo auditivo
vida, música, ritmo, melodia, alto, baixo, pausa, som, com dó e sem dó.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

governo

A quatro de outubro do ano da graça de dois mil e quinze houve eleições para escolher deputados à assembleia legislativa da república portuguesa. Concorreram vinte e dois partidos. O partido mais votado (psd) conseguiu 89  deputados, o segundo (ps), 86 deputados, o terceiro (be), 19 deputados, o quarto (cds), 18 deputados, o quinto (pcp), 15 deputados, o sexto (pev), 2 deputados e o sétimo (pan), 1 deputado. No total 230 deputados. Nenhnum dos outros partidos elegeu deputados.
A direita política (psd e cds) soma 107 deputados. Os outros partidos (ps do centro político, be da esquerda , pcp da esquerda , pev ecologista e pan que se diz sem ideologia) somam 123 deputados. A direita política não tem maioria. O centro-esquerda e a esquerda têm a maioria. Se há entendimento em questões essenciais como educação, saúde, habitação, segurança social, economia, trabalho, cultura, ciência, entre os partidos de centro esquerda e esquerda, não deverão ser eles a governar? Afinal quem ganhou as eleições?
Se atendermos ao significado da palavra "democracia", poder do povo que escolhe através de sufrágio universal sem voto obrigatório, todos ganharam, mesmo aqueles que se abstiveram, todos exerceram o seu direito, uns de votar outros de não votar. Quem não vota decidiu entregar a decisão a quem escolheu. Não decidir é sempre decidir não decidir, em democracia toda a atitude legal, moral e ética é legítima. Pois que assim seja. Há um velho princípio, o da maioria, que diz que em democracia quem deve decidir é a maioria. É difícil não concordar politicamente com esse axioma. Vivemos nele e com ele e não é assim tão depressa que o vamos abandonar. Então porque tremem alguns empresários, leia-se "capitalistas", com nervoso miudinho? Então a vontade da maioria do povo não é para respeitar?
Com a revolução francesa o poder político tornou-se tripartido: executivo (governo), legislativo (representantes do povo) e judicial (tribunais). É um trindade axiomática que trouxe notáveis progressos na aplicação da ética e da moral nalgumas partes do mundo ao longo de muitos anos e ainda hoje, apesar dos sinais preocupantes que vêm de diversas latitudes.  O governo governa, isto é, toma todas as diligências possíveis para que as leis sejam executadas, governar é tão somente fazer cumprir as leis. Ao governo não cabe fazer leis. Quem manda no governo é o povo através dos seus representantes, o governo não governa a assembleia legislativa, ela é autónoma, tal como o povo. As leis emanam da vontade popular e são feitas pelo legislador, o conjunto de deputados, legítimos representantes do povo. Os tribunais julgam para que de alguma maneira a justiça se cumpra e a interpretação da lei não seja atrabiliária, para que não haja abusos de poder, para que haja equilíbrio no deve e haver individual e social. Deve respeitar-se a tradição quando ela é democrática e não quando ela vai contra a liberdade, a igualdade e a fraternidade, por isso o respeito pela vontade do povo é o respeito político máximo, corresponde ao grau máximo da ética política. Não há argumentos sólidos que justifiquem o "nervoso miudinho" de alguns empresários, a não ser a justificação psicológica do medo de perder o poder que o dinheiro dá sobre os outros: alterar a base tributária parece fazer temer e tremer alguns, mas pode ser uma legítima decisão dos representantes da maioria do povo que pode, deve e tem o direito a entender-se para formar um governo que esteja de acordo com os entendimentos fundamentais de uma maioria muito mais do que aritmética.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

vento

à medida que o tempo passa
o vento ondeia a vida
as cristas das montanhas
acumulam camadas de pó
sobre a história da pele
que se vai desprendendo
no dia a dia, no rame rame
as turbas de sísifos carregando
subindo, forçando, gritando, rindo
as voltas que o mundo dá
a roda gigante passando
esmaga, subsume, absorve
máquina sem eixo de atrito
volante sem timoneiro
nem qualquer fundamento
é o vento que evola, voa e sobrevoa
e nos mantém cativos uns dos outros
abracemo-nos enquanto escutamos
o rumorejar das águas e a navegação das penas
beijemo-nos: quando os lábios se tocam
o universo urge e o sol nasce não para queimar
mas para aquecer e invocar a luz 
para o imenso oceano das trevas
então os corpos fundem-se
como o metal sob o desígnio de Hefesto
e a vida espraia-se por entre as marés
nas areias do sul de horizonte azul-turquesa
onde florescem cristais como palavras
conchas puras, almas despidas, sem destino, navegando...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

sentir



não sei dizer ao certo o que sinto
mas posso pincelar a folha branca
de pequenos movimentos circulares
de abelha sobre os frutos serôdios do verão
do pendular incessante dos ramos finos
das árvores que me interessam, as mais próximas
as pequenas agitações das folhas verdes claras
verdes escuras sob um ramo seco cuja extremidade
suporta animadamente uma libelinha quase transparente
equilibrando-se à luz do sol reluzindo suas asas de cristal
baloiçando ou parando qual estátua viva admirável
como se à sua volta nada existisse ou apenas a realidade
fosse o seu pensamento autorreflexivo
talvez só sonho este estar acordado com a pontaria da atenção
o mais afinada possível
ao olhar devagar para a paisagem eis que não vislumbro
nem abelha nem libelinha, 
abalaram do meu pensamento
ou fugiram da realidade em direção ao nada que eu próprio desconheço?

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

utopia

     A utopia é uma ideia que parece irrealizável. Terá sido uma palavra inventada por Thomas More (1478-1535) para nomear uma ilha ideal onde toda a gente seria feliz porque a organização política, social, económica e cultural seria de tal forma que estaria isenta absolutamente de todos os erros e vícios que convergem para o mal no mundo em que vivemos e que, de certo modo, é uma constelação de distopias, por oposição às utopias.              Etimologicamente, utopia é um não lugar. Nesta perspetiva a utopia não existe enquanto materialidade. Mas podemos dizer que a utopia é real enquanto ideia. Desde Platão que podemos falar em graus de realidade e em mundo sensível e mundo inteligível. De facto a realidade não se reduz ao visível ou palpável. A estrutura material do mundo, se considerarmos os conhecimentos científicos sobre a estrutura da matéria, contém mais espaço vazio do que cheio. O átomo parece ser um pequeno núcleo com um ou vários protões e neutrões, separado do eletrão ou eletrões por um vazio imenso. Materialmente, o mundo e tudo o que o constitui, é mais vazio do que cheio. Materialmente quase que não existimos. Na construção do conhecimento do mundo, muitas vezes é mais importante o invisível do que o visível. O essencial é invisível aos olhos, tal como nos ensinou Antoine de Saint-Exupéry, só se vê bem com o coração. Por isso Platão considera que a autêntica realidade é invisível e tudo quanto constitui o mundo sensível não passa de cópia imperfeita dum modelo real inacessível aos sentidos mas não ao pensamento.
     Eduardo Galeano escritor e jornalista uruguaio (1940-2015), escreveu: "a utopia está  no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte distancia-se dez passos mais além. Para que serve a utopia? Serve para isso, para caminhar." Perguntamos agora, as utopias são realizáveis? Isto é, poderão ser construções humanas de carne e osso, terra e todo o tipo de materiais com uma correspondência perfeita com a sua ideia? A república de Platão, a utopia de Thomas More, a cidade de Deus de Agostinho (354 - 430), filósofo cristão, ou a sociedade comunista de Karl Marx (1818-1883), filósofo alemão, são utopias? Uma vez que não foi criada nem encontrada nenhuma realidade condizente com as descrições, planos e imaginações dos referidos autores naquelas obras, podemos asseverar que são utopias. Daí que poderemos pensar que as utopias são, enquanto tal, irrealizáveis. Se realizadas deixarão de ser utopias para pertencerem ao mundo material dos homens, se apenas forem processadas pelo pensamento, continuarão utopias. Contudo, as utopias têm uma força enorme na prossecução da vida humana, sem utopia não haveria caminho, de algum modo, o futuro é a cada momento um conjunto de utopias mais ou menos universais. A perfeição é a utopia que existe primeiro enquanto ideal e depois enquanto processo individual, social e histórico. O voo solitário de trinta e três horas, sem escalas, em 1927, realizado pela primeira vez por Charles Lindberg (1902-1974) sobre o atlântico norte era, para muitos, considerado uma utopia e foi realizada. Vai-se sempre um pouco mais além devido à força gigantesca da utopia que vive em nós e que é inevitável. Poderíamos dizer, tal como Eduardo Galeano, sem utopia não há caminho.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

mónadas

hoje há um sol tremendo
não sei porquê o meu coração
ferve de paixão como a lava
no túnel da montanha
embrenha-se nas trincheiras de terra
onde há guerra, girassóis e ventos alísios
um pássaro debica na corola da extinta
pétala da flor da árvore do paraíso
sem compaixão e sem alma
alimenta-se para dar continuidade ao mundo
tudo isto, o crepitar das folhas, 
o vento fresco da manhã
o poderoso contralto vocal da cantora Amy Winehouse
a luz sibilina dos bibelôs galos, galinhas, vacas ou laranjeiras
a janela triangular que não se abre
mas dá para o firmamento entrecortado pelas brancas cordas da roupa
azul luminoso, cinza e quente
o xadrez das paredes e dos jogos prometidos
os nódulos de luz debaixo da laranjeira
dançando liminarmente ao som dos movimentos invisíveis
serão as mónadas leibnizianas a ficcionar-nos as vidas?

A lei da vida

     O presente é a prenda que o mundo nos deu, é o melhor e o pior, é tudo. Aqui e agora está e é o que podia, pode ou poderá ser. Qualquer época da nossa vida é a melhor possível. Não dominamos parte de nós, muito do que somos é inconsciente, isso manifesta-se, por exemplo, na arte. A arte vai muito para além do artista, este, por vezes espanta-se com as suas próprias produções. Há, com certeza, racionalidade. É a razão que nos permite a mudança para melhor através do trabalho, da meditação, da reflexão sobre o que vem à consciência e que parte, eventualmente, do inconsciente, passando pelo subconsciente. Os medos, as angústias e os preconceitos estão enraizados em todos de diferentes formas, consoante a constelação cultural em que vivem. Podem ser descobertos e racionalizados pela literatura, a forma de arte que mais apela à reflexão enquanto se frui. O mundo pode melhorar a partir do momento em que cada um se aperfeiçoa. O caminho para a perfeição não é impossível, concretiza-se pela leitura, pela reflexão, pelo pensamento sobre a vida e pelo desenvolvimento da capacidade de viver, olhar, escutar, sentir. Somos inteiramente livres se dispusermos de tempo e de espaço para fazer arte e para refletir sobre ela enquanto a contemplamos. Somos animais estéticos, a estética é individual e comunitária, logo política. Fabricar arte e "consumir" arte é um ato político e é ao mesmo tempo o que nos torna humanos, embora tenhamos muito, talvez mais do que o que o cristianismo nos legou, em comum com os animais a que chamamos irracionais. 
     Não me parece que haja progresso humano com a evolução histórica. A própria história nos dá essa informação. O holocausto é disso um exemplo. Há inovação tecnológica que traz sempre consigo esperanças e angústias. A velocidade do comboio no século XIX trouxe consigo tantos medos e temores como a internet nos nossos dias. Nós é que não chegámos a senti-los. Não me parece que as conquistas tecnológicas sejam a proximidade do apocalipse. O mundo já esteve para acabar várias vezes, segundo relata a história das crenças metafísicas e religiosas. Apesar de tudo, nós cá continuamos e os nossos descendentes farão o possível para sobreviver com a menor dor possível, essa é, parece-me, a lei fundamental da vida.

domingo, 19 de julho de 2015

O que há de novo para dizer?

        O que há de novo e realmente importante para dizer que não haja já sido dito? Bem vistas as coisas, depois de Platão e de Aristóteles e da gigantesca panóplia de comentadores seus, parece que não há nada de novo sobre a terra que valha a pena refletir em grande profundidade. Esse trabalho já terá sido feito. Contudo nenhum pensador ou cientista, tanto quanto se pode saber, explicou, desvendou ou descobriu o porquê dos enigmas que se mantêm desde sempre e provavelmente para sempre: o enigma do mundo e da vida. A estes dois enigmas outros se encontram associados: a origem do universo, o tempo, o finito e o infinito, o amor, a morte e a fala. Muito provavelmente jamais aqueles enigmas serão explicados, justificados ou compreendidos. As dimensões a que chamamos razão, emoção e sentimento mostram, a cada dia que passa, imensas limitações. Todas as reflexões que surgem, e que podem vir a manifestar-se, baseiam-se na linguagem quer falada quer escrita e esta linguagem foi, é e será sempre um problema para si própria. Todo o conhecimento teórico é de natureza metafísica. Há sempre uma distância infinita entre as palavras e as coisas. Há sempre um hiato entre dois ou mais seres racionais que comunicam, a racionalidade é sempre afetada pela emoção, não há uma razão pura tal como Kant postulou. Por sua vez, a emoção é também determinada por fatores arcaicos como o marcador somático, referido por António Damásio. Por outras palavras, não há, nem é possível, uma comunicação perfeita.
        A nós, pequeníssimos grãozinhos de poeira do século XXI foi-nos legado um registo de memórias muito maior do que aos nossos antepassados. São gravações na pedra, no pergaminho, no papiro, no papel, nas fitas magnéticas, nos discos rígidos dos computadores e na gigantesca e complexa rede a que chamamos internet. Por isso é possível fazer progredir, com mais eficácia, o trabalho científico na área da linguagem e  da fala. Tudo o que se faz tem por detrás a linguagem, por isso tudo o que se pensa e se projeta, é em primeiro lugar palavra, só pela palavra se diz o que se pensa. A palavra é o som emitido pelo aparelho fonador. Esta emissão ou projeção deriva da necessidade do organismo se expressar para comunicar, cujo sentido primeiro é pôr em comum, reunir, tornar único, partilhar. A palavra possibilita a comunidade, viver humanamente é partilhar, sendo a partilha primeira a da fala. Dizer ou falar é emitir palavras na presença do outro para o outro, escrever é falar em silêncio, soliloquiar e, assim, tornar-se potencialmente a companhia de algum outro. Desde que Platão escreveu até hoje, talvez milhões de pessoas tenham partilhado, principalmente por meio de traduções, a sua escrita. Essa comunidade anónima, na medida em que partilha o texto de Platão, no todo ou em parte, forma aquilo a que poderemos chamar "Platão". O que poderá ser Platão no século XXI senão a leitura e a partilha, de algum modo, dos textos que nos deixou há dois mil e quinhentos anos? Platão já não existe, o que há é uma constelação de textos, traduções, comentários, críticas,  que estabelecem alguma relação entre si. De qualquer modo as palavras que escreveu surgiram da necessidade, assim como radicam na necessidade o ato de leitura, de interpretação, de releitura, de reinterpetação e assim sucessivamente. 
        Se nos ativermos à dimensão fundamental da vida, o tempo, e as suas mais comuns ou possíveis interpretações, sabemos, tal como nos ensinou Agostinho (354 - 430), teólogo e filósofo cristão muitíssimo influente, que há sempre uma partição do mesmo em três conceitos: passado, presente  e futuro. O passado consiste apenas num conjunto ou constelação de memórias vivificadas, não se pode dizer que tenha uma existência atual, o presente é aquela ínfima ligação entre o passado e o futuro, é o vivido, pensado aqui e agora, neste preciso instante, o futuro não pode ser mais do que uma projeção fundada no passado. Passado e futuro são tempos da "alma", são tempos apenas do pensamento quando, e só quando, este se exerce. Não há passado nem futuro, tal como poderemos deduzir do pensamento de Nietzsche (1844-1900), o que há é um eterno presente quando é refletido e vivido intensamente. Como é impossível desviarmo-nos da dimensão temporal para tentarmos compreender seja o que for, tudo o que podemos dizer não passa de uma narrativa que jamais poderá ter fim. Tal como Heraclito   (535 a C - 435 a C) terá revelado, tudo flui, a mudança constante é característica primordial da realidade: ninguém pode tomar banho duas vezes na água do mesmo rio. Tudo e todos estão em perpétua mudança, pelo que é difícil, (por que não impossível?) pensar aquilo que é. Nada é, de facto. Tudo foi, está sendo ou será. E este é de facto o problema da palavra: qual é a realidade que denota quando a partilho ou a mostro num determinado momento? A palavra é a mesma, apresenta a mesma grafia ou a  mesma característica fonética doutros momentos ou doutros contextos. Mas se a realidade se encontra em permanente metamorfose no presente, a palavra permanece sempre aquém do mundo ou das coisas. A linguagem vai atrás do mundo, as palavras vão sofrendo alterações de significado e enquanto umas vão morrendo outras vão nascendo, tal como os seres. Não somos os mesmos de há minutos ou de há anos atrás. No limite teríamos de produzir a cada momento uma palavra nova para denominar determinado ente que se encontra em mudança, e que assim já é outro, isso significaria não pensar. Haveria um bloqueio do nosso 'sistema operativo' devido à impossibilidade lógica de nomear a cada instante um novo ente e ao mesmo tempo devido ao paradoxo do sujeito nomeador se encontrar também ele em mudança.  O pensamento é movimento que se intui  a si próprio e se desenha, se desenrola, se desdobra. 
        A sinapse, bioquimicamente, a "unidade" do pensamento, é fluxo de neurotransmissores entre neurónios, é movimento interno no cérebro, mudança, troca, ressalto, complexo é certo, como é certo também que determina o pensamento, nomeadamente sob a forma de palavra. Cabe aos cientistas descobrir quantas e quais sinapses, em que sítio e como funcionam, para que melhor se compreenda este fenómeno tão espantoso que é a palavra. A palavra não pode dizer a realidade não linguística porque a realidade não é tão estática como ela. A palavra filosofia terá sido dita ou escrita pela primeira vez por Pitágoras (571 aC - 495 aC): Φιλοσοφία.  A grafia é a mesma volvidos mais de dois mil anos, mas o significado da palavra filosofia apresenta respostas diferentes na atualidade, como é diferente o significado do termo filosofia em Descartes, mathesis universalis,  em Hegel, Ciência das ciências ou em Marx, transformação do mundo. O pensamento como realidade que se pode pensar a si própria é uma ficção necessária, a palavra é a ficção de si própria e da outra realidade para a qual  aponta. Pela palavra se diz, mas o dizer não é mais do que uma efabulação mais ou menos lógica, mais ou menos aceitável ou compreensível sobre aquilo que supomos serem sinais ou indícios da realidade.
        Como a realidade é em si própria mudança, fluir incessante pela temporalidade, há sempre novidades para dizer, novas realidades e necessariamente novas palavras. Palavras velhas com significado novo e palavras novas nascidas do ventre das velhas que hão-de ser subsumidas ou substituídas por outras ainda mais novas e assim sucessivamente. O novo na linguagem, como em tudo o mais, não é mais do que a metamorfose do velho.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

lua

a lua sorri
não sabe que sorri
não sabe que existe
e nós que a vemos
sabemos que ela existe
que sorrimos para ela 
quando a vemos
e sabemos de nós
que nos desconhecemos
como todo o mundo desconhece
o que supõe ser o mundo
não é por não termos sentidos
que nos dêem a verdade
é por sabermos que dentro
e fora de nós há sempre
um buraco negro que absorve
toda a realidade, pode ser matrix
génio maligno, jornal, net ou tv
conversa do lado no café da esquina
desabafo no autocarro  
declaração na caixa do supermercado
ou revista velha no consultório do dentista
mas como não sabemos quando está 
nem onde está ou como se mostra
mesmo que tenhamos a verdade 
nas mãos à frente dos nossos olhos
e a cheiremos com todas as células
das nossas mucosas nasais
não a identificamos
não lhe podemos dizer: 
verdade como és bela
quero-te, leva-me contigo
por esse universo fora.

desaprender

desde que me conheço
e conheço-me desde pequenino
encheram-me a cabeça de fantasmas
as profecias do fim do mundo
o comunismo, a morte, o pecado
colocaram-me um funil na boca
e despejaram para dentro do meu corpo
o medo de deus, o medo da natureza
o medo da polícia,o medo da professora
(da palmatória), o medo do sexo
o medo da autoridade
enfiaram-me na moleirinha o ódio ao cigano
o desprezo pelos desvalidos 
por todos aqueles que não têm onde cair mortos
incutiram-me a indiferença pelos pretos
pelas prostitutas, pelos homossexuais
ensinaram-me a respeitar os discursos do salazar
e a escutar com atenção as conversas 
em família do professor caetano
fizeram de mim um aprendiz da miséria
educaram-me para ser fascista
obrigaram-me a memorizar o conteúdo das missas
ensinaram-me a ralhar e a gritar
mostraram-me todos os dias como se dá porrada
como se leva porrada, como se pode fugir à porrada.
e agora a minha vida não é mais do que desaprender
sem perder tempo e sem ter pressa
porque o meu sonho ou o objetivo da minha existência
é chegar a velho, (somos velhos a todo o momento) e morrer feliz
morrer como se estivesse a nascer
para sentir a vida a desdobrar-se 
em toda a sua magnífica alegria
a pulsar-me nas veias como música
de wagner a embebedar-nos de universo
como os quadros de miró que nos mostram tudo pela primeira vez
ou como a lírica de Camões que nos ensina o amor.

velha de siracusa

tanto mistério
tanta maldade escondida
tanta praga 
tanta guerra
tanta inveja
tanta terra prometida,
tanta primavera por vir
tanto amor à solta, 
tanta lágrima de saudade
tanto mar descoberto, 
tanta água por beber
tanta ignorância
tanta ciência
tanta política
tanta igreja
tanta bomba
tanta salvação
tanta morte
tanta vida
tanta violência
tanto olhar
tanta dança
tanta criança
tanta arte
tanta coisa boa que não se usa
tanta velha de Siracusa

Post Scriptum:
conta-se que em Siracusa, apesar de todos os súbditos desejarem a morte do tirano Dionísio, certa velha não deixava de orar, pedindo a Deus que nenhum mal fosse feito contra o tirano. Sabendo disso, os súbditos perguntaram-lhe o porquê dessa súplica e ela respondeu: quando eu era menina, tínhamos um tirano cruel e desejávamos a morte dele, morto esse, sucedeu-lhe outro tirano, porém mais cruel. E começamos a ter um governo mais opressor. Esse novo tirano é Dionísio, portanto se for deposto, e até morto, sucederá um pior no seu lugar.(1)


(1) Tomás de Aquino e o direito à resistência contra o governante, Prof. Dr. Ivanaldo Santos, Ágora filosófica, Rio de Janeiro, 2007.

a mula de tales

humanos demasiado humanos
animais demasiado animais
o tempo e a vida infinita além da morte
o espaço sideral, todos os firmamentos
origens, princípios e fins
nada disso nos pertence
nosso só o instante do verso
observado por precisão
nossa só a lassidão por evolar
a vida é uma sucessão de coincidências
da inspiração com o movimento do corpo
da luz repentina que invade os olhos
que vai ao neurónio preciso e rigoroso
e faz surgir o mundo transcendental
a consciência de si
que nos catapulta do peso para a leveza
a nossa ambição igual ao desejo
não ultrapassa a escala ontológica
da fascinante mula de Tales
que passou a transportar lã em vez de sal
e se elevou aos céus
do peso para a leveza
por intervenção do conhecimento da água.

Post Scriptum:

Atribui-se a Tales de Mileto a história da mula que quando carregava sal entrava no rio para dissolver o sal e diminuir o peso da sua carga. Tales, para tirar esse mau costume do animal, carregou-o com lã.

ciência do silêncio

os silêncios dos outros
viajam com eles à velocidade do corpo
que movimentos, que acelerações, que pausas?
não sei dos outros, apenas posso falar de mim
os meus silêncios surgem-me às vezes cheios
às vezes vazios. Assim poderei iniciar, não sei porquê
talvez por prazer, por desejo ou por determinação natural
a descrição das memórias ainda vivas, as outras estão adormecidas
e a seguir, como Aristóteles ou Lineu, catalogá-las
e com elas fazer camadas e dispô-las umas sobre as outras
começando pela mais pesada até terminar na mais leve
talvez numa espécie de pirâmide
de modo que os silêncios e as memórias fariam parte
de um tronco científico de mim mesmo, para nas horas vagas
(haverá horas vagas?)
perceber, como a raposa, a nitidez do exato cheiro da realidade
e ter consciência da manha e dos amanhados que de mim dependem
que não serão tantos quanto isso.
A ciência dos silêncios poderá ser tão ciência como matemática
ou lógica porque de tão invisíveis são tão belos e pode haver
com certeza alguma gente para dar por isso
e assim seria a vida, partilhar pausadamente o brilho invisível
das palavras, tão silenciosas, a mostrarem-nos o sublime
ímpeto do sangue na pele doirada das uvas.