segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

humanidade/animalidade

     Há algum tempo, no decorrer de um diálogo, alguém versado em ciências físico-químicas disse que não gostava de filosofia por ter tido um professor-filósofo que asseverava que os animais não pensam. Mostrei de imediado a minha discordância acerca de tal ideia: os animais, a que vulgarmente se chama irracionais, pensam. Para sabermos se os animais pensam, em primeiro lugar há que ter deles o maior conhecimento possível e em segundo lugar saber o que significa pensar. Pensar significa formar ideias, refletir e imaginar. As ideias serão com certeza, pelo menos em parte, imagens relativas à realidade dada aos sentidos, isto é comum aos humanos e aos outros animais.
     Vulgarmente atribui-se ao instinto a capacidade e as competências inteligentes dos animais, e diz-se que eles se limitam a seguir as determinações pré-programadas geneticamente pela natureza. Por isso também se diz que os animais são como que autómatos e não apresentam a característica do livre-arbítrio. Nós, de um modo ou de outro, incutimos desde muito cedo, nos jovens, as ideias da culpa e da responsabilidade com base na capacidade de decidir. Deste ponto de vista, os animais não decidem porque antes disso é necessário o livre arbítrio e a deliberação. Se não decidem então não poderão ter responsablidade de nada, não têm direito a identidade jurídica nem se lhes pode atribuir direitos ou deveres, não têm uma moral, não são políticos.
     A filosofia sempre colocou os seres humanos fora da sua animalidade, ou quando muito, considerava-os animais racionais, principalmente por terem um desempenho linguístico bem diferente daquilo que se conhecia dos outros animais, esse desempenho aferia-se sobretudo pela dupla articulação, no fundo um desempenho lógico-simbólico pela palavra falada e escrita. Os animais não escrevem, ou pelo menos não escrevem de modo semelhante aos humanos, os animais inscrevem-se, marcam territórios e agem de acordo com a sua inscrição no seu habitat. Há muitos seres humanos que nada escrevem e cujo trabalho simbólico é quase inexistente ou muito incipiente. Os nossos antepassados do paleolítico, na perspetiva das filosofias humanistas, estariam mais próximos da animalidade pura do que os nossos contemporâneos porque mais próximos da vida natural. Tendia-se a identificar, em larga medida, a animalidade com a natureza e colocava-se o homem como um elemento fora da natureza, ou dentro dela para a dominar, para a instrumentalizar. Por isso os animais eram, tal como os primeiros escravos, uma espécie de ferramenta animada.
     Há pouco tempo (agosto de 2013) Jason Bruck, investigador da universidadde de Chicago, descobriu que os golfinhos têm uma memória aproximada à dos seres humanos, atribuem nomes próprios a cada membro da sua espécie e comunicam através de mensagens de grande complexidade. Onde está a diferença fundamental entre o mundo humano e o mundo animal? Estará naquilo que habitualmente se designa por consciência? Não deixa de ser interessante um artigo do filósofo inglês John Gray, do livro "sobre humanos e outros animais", intitulado "a pobreza da consciência" em que cita Margulis: "os pequenos mamíferos comunicam o terramoto ou o aguaceiro que se aproxima. As árvores emitem 'voláteis', substâncias que avisam as suas vizinhas que existem larvas a atacar as suas folhas (...) as alcateias de lobos e as extintas manadas de dinossáurios recorrem a uma comunicação propriopcetiva social (...) Gaia, a terra fisiologicamente regulada, dispunha de uma comunicação proprioceptiva global muito antes da humanidade ter evoluído." A consciência tem nesta perspetiva pouca importância para a compreensão do funcionamento do mundo. O que é determinante é a sensação e a perceção, que existem igualmemte no reino das plantas e dos animais. O mundo dado pela consciência é apenas um pequeno fragmento do que é necessário para a sobrevivência, por isso a consciência, essencialmente apresenta uma grande pobreza.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

deriva

ancoragem dá coragem
há uma direção desconhecida
o inexorável destino, a moira
desconhecemo-lo absolutamente
talvez seja essa consciente ignorância
a fonte do nosso alento
o vento obedece a mil e um desígnios
não nos vamos assustar
seguramos firmemente as nossas mãos nas mãos
se o navio se afundar também nos afundaremos
mergulharemos no abismo infinito
onde nos encontraremos incessantemente
por cada minuto percorrido
os tubarões não nos comerão
a sua barriga já está cheia do lodo
retirado para o navio partir

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

fartos

a inconstância constante que chafurda
no esterco ultra-neo-liberal
o individualismo, ostracismo 
a indemnização da finança
o pecado e a pena capital
a violência pública publicada
o radar e a multa
os filhos da puta
a catapulta chanfrada
a parada militar
as insígnias e altas patentes
o generalato
o corruptível juiz
a guerra das estrelas
as campanhas de caridade
o beija-mão bajulador
a miséria franscicana
a dor de cotovelo
as picadas dos mosquitos
o zumbir das melgas
as tremelgas e os moscardos
o aguilhão dos carrascos
os top ten, top hundred, top thousand 
os inacessíveis carnavais de veneza
a realeza, o nobre e o plebeu
o politicamente correto 
o sorriso amarelo profissional
a insónia existencial, o cadáver adiado
a citação obscena, a miss tudo e tudo
o vírus informático, o snobismo
o veganismo e as modas das hordas
o luxo imoral inestético, anti-ético
o salário do ronaldo, a pobreza do aristides
os colonatos de israel
o frango a suar hormonas, 
a agricultura biológica
a capital do presunto, o centro do mundo
a estátua da liberdade, a ponte de S. francisco
o ferrari do papa e o lamborghini egoísta
as homenagens, 
o culto da personalidade
a terminologia terceiro mundo, terceira idade
as guerras santas, a pseudo arte efémera
o fascismo humanismo
a fatura da fratura e da rotura.
fartos mas vivos
não nos hão-de ladrar o sonho.

sábado, 23 de novembro de 2013

arte

Na antiguidade grega no tempo do famoso Péricles (495 a C - 429 a C) houve um influente filósofo, Anaxágoras (499 a C - 428 a C), que defendia que tudo está em tudo. Uma das principais convicções deste filósofo era a de que o universo é gerido por um princípio ou inteligência que determina e permite todas as transformações que ocorrem. É por isso que os seres humanos andam sempre à procura de qualquer coisa que se esconde e que deriva dessa inteligência: as leis da natureza. Era convicção sua também a de que o universo seria inicialmente uma mistura de sementes diferentes e que posteriormente se transformou dando origem a espaços e objetos diferenciados.

A ideia de  que tudo está relacionado com tudo, é no século XXI, geralmente aceite na comunidade científica e filosófica, daí a importância de compreender a génese de tudo isso e analisar de novo os fragmentos deste filósofo pré-socrático. A biologia molecular, a química orgânica e a mecânica quântica não contradizem Anaxágoras. Contudo pensamos que se pode estender esta ideia de que tudo está em tudo ao domínio das artes. 

Em primeiro lugar teremos de estabelecer critérios, tanto quanto possível, universais, para que não restem dúvidas sobre se um determinado objeto é ou não uma forma de arte:

a arte é criação original pela técnica e produz sempre, enquanto tal, efeitos estéticos significativos, toca nos sentimentos e produz emoções, engendra a reflexão que leva à reprodução da vida enquanto processo criativo pregnante. O objeto de arte é sempre único e original,  não é cópia de coisa alguma. A arte conjuga, na perceção que dela temos, os nossos sentidos. Poderemos falar das artes visuais, olfativas, táteis, acústicas e do gosto ou paladar. Não existem formas puras de arte, todas elas são em maior ou menor grau uma combinação de umas com as outras. A arte é sempre um produto humano que radica nos sentidos, no ser humano que é em si, uma unidade, um corpo com toda a complexidade bioquímica, física e psicológica de que sabemos ainda muito pouco. A arte é o fundamento da compreensão da vida e do mundo, o elo mais importante na cadeia relacional que garante à humanidade a abertura para as mudanças de comportamento individual e social. Sem arte não há cultura nem tecido social minimamente organizado. A arte é condição necessária da ética: é pela arte que se criam os valores e ao mesmo tempo se processa a transmutação dos mesmos. A arte garante a continuidade e a abertura suficiente para a alegria que se expressa também no riso. A arte choca, martela, quebra, estilhaça, desconstrói, reconstrói, vivifica. Pela arte entra-se no mais pregnante processo de valorização da vida. Arte e vida podem, por isso, identificar-se em muitos momentos da existência de qualquer ser humano. A vida de uma pessoa pode ser uma obra de arte: enquanto criação , fruição intensa ou mera contemplação. A hermenêutica da arte pode ser arte, na medida em que toda e qualquer interpretação pressupõe convivência, partilha do objeto artístico, criação literária, um novo objeto artístico. Por isso toda a arte apresenta em si esse potencial de se reproduzir até ao infinito. A arte reproduz-se como a vida. O objeto de arte é sempre arte da arte ou se quisermos meta-arte.

Atualmente fala-se nas artes seguintes: 
primeira - música; segunda - dança e coreografia; terceira - pintura, quarta - escultura/arquitetura; quinta - teatro; sexta - literatura; sétima - cinema; oitava - fotografia; nona - banda desenhada; décima - digital; décima primeira - culinária. Contudo não há consenso absoluto sobre a sua numeração ou catalogação. É evidente que os suportes artísticos são variadíssimos e não param de se diversificar com a proliferação de novos materiais e de novas tecnologias.

A estética é a área da filosofia que estuda a sensibilidade do ponto de vista da compreensão  do sentido do que é ou não arte, qual a sua origem, processo, significado e finalidade. Avalia o sentido do ser dos seres humanos e a relação existencial entre eles, na medida em que é sempre uma relação de sensibilidade. Avalia também a relação da arte com o que não é arte e não deixa de ser criação humana: religião, ciência, ontologia, ideologia, política, lógica, ética. A estética permite-nos compreender o que é o belo, o sublime, o feio, a verdade. Por isso analisa ao pormenor as obras de arte depois de lhes ter reconhecido o ser.

Em conclusão podemos exemplificar a arte como arte combinada através de um poema de Vinicius de Moraes que foi musicado e desenhado como se pode ver e ouvir:









quarta-feira, 13 de novembro de 2013

clonagem

    A clonagem é, no século XXI, uma questão transversal e interessa cada vez mais à psicologia. Esta tem como objeto o estudo dos comportamentos e dos processos mentais e não pode ser alheia, em geral e em particular, à clonagem. No geral a clonagem apresenta-se como um processo assexuado de produção de clones ou cópias geneticamente idênticas, no todo ou em parte, ao ser vivo que se pretende reproduzir. Em particular podemos falar em diferentes tipos de clonagem: natural, reprodutiva, embrionária e terapêutica.

     A primeira é um processo de multiplicação natural de seres vivos que dá origem a indivíduos geneticamente iguais; a segunda consegue-se pela transferência da informação genética do núcleo de uma célula somática pertencente ao ser vivo a clonar para uma célula recipiente a que se extraiu o núcleo; a terceira diz respeito a um processo semelhante ao da geração de gémeos monozigóticos, o óvulo fecundado clona-se, em determinadas condições, a si próprio, originando ovos separados que correspondem a embriões independentes; finalmente, a clonagem terapêutica permite que se duplique, não um ser vivo, mas células-tronco embrionárias para construir tecidos e órgãos para transplante.

     Com estas técnicas existe a possibilidade de criação de clones humanos. Por isso surgiram muitos receios, fundados em questões éticas, morais, religiosas e políticas que levaram as instituições e organizações responsáveis a deliberar sobre as consequências que poderão advir do uso ou da instrumentalização das diferentes técnicas de clonagem. Daí que o Conselho Europeu tenha declarado a “proibição da clonagem humana reprodutiva”. A razão fundamental desta declaração prende-se com a possível proliferação de métodos de eugenia com objetivos políticos e económicos que poderiam atentar contra a dignidade humana para a qual a psicologia deve contribuir.

    Apesar de se reconhecerem já benefícios e riscos no incremento da clonagem, do ponto de vista psicológico, faz todo o sentido impor limites às diversas formas de clonagem, de modo a salvaguardar aspetos psicológicos fundamentais como o da identidade humana.

    Os riscos, que têm a ver com a eficiência da clonagem, com a esperança de vida curta dos seres clonados, com a uniformização ou massificação desses seres, com os problemas emocionais e psicológicos dos seres clonados e com a possibilidade do surgimento de mercados ilegais de doadores de células, talvez sejam suficientes para impor um travão à proliferação da clonagem, apesar de se reconhecerem também potencialidades positivas tais como: a evitação do complexo de infertilidade de muitos casais; a redução de certas doenças genéticas, de vítimas de problemas cardíacos, de problemas de cirurgia estética e plástica, de tetraplégicos e o envelhecimento geral do organismo. 


    Do ponto de vista da psicologia faz todo o sentido continuar as investigações em torno da clonagem, mas, como em toda a ciência e em toda a técnica, há um imperativo ético-moral e ético-social, por isso faz todo o sentido impor limites que garantam a individualidade humana e os seus correlatos: os processos mentais e os comportamentos.

verdade conveniente

              A lógica, criação de Aristóteles e de outros pensadores que se lhe seguiram tais como Leibniz, Frege e Boole, é uma disciplina que concorre para a análise rigorosa do pensamento e da linguagem. A linguagem natural, expressa através da fala e da escrita, condiciona o pensamento e este condiciona aquela. O que caracteriza o Homem e o torna muito diferente de todos os outros seres é a linguagem. Esta apresenta, na sua íntima estrutura, uma organização lógica, assente nos princípios da razão: identidade, não-contradição e terceiro excluído.

    Parece evidente que a lógica ensina a pensar clara, concisa e corretamente, permite desenvolver competências de raciocínio e argumentação e aumenta a capacidade de avaliação crítica de argumentos. Quem aprende lógica pensa de um modo mais preciso e comete menos erros de raciocínio.

    Os seres humanos para cumprirem os seus desígnios necessitam de pensar autonomamente e de comunicar. Fazem-no, fundamentalmente, através da linguagem natural que apresenta muitas ambiguidades, o que leva, muitas vezes, ao cometimento de falácias, erros que poderão ser evitados com o treino lógico da linguagem.

    Um dos maiores problemas humanos consiste na dificuldade ou incapacidade de comunicação. A lógica melhora a nossa estratégia comunicacional e confere mais solidez aos argumentos que constantemente temos de utilizar.

    Se tal como Aristóteles evidenciou, a causa final do Homem é a felicidade, poderemos assentir que não será possível caminhar para ela sem o desenvolvimento do pensamento rigoroso. Quem pensa melhor comunica melhor e poderá ser mais feliz, poderá a todo o momento contribuir para a sucessiva realização dos seus objectivos imediatos e de longo prazo porque as suas decisões baseiam-se em argumentos sólidos e dificilmente serão más decisões.


    Não seria possível todo o “edifício” artístico e científico sem a prestimosa ajuda da lógica. Esta conduz-nos inevitavelmente aos caminhos da verdade que para a filosofia nunca é inconveniente.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

o valor da democracia

Há algum tempo atrás, no decorrer de uma aula, depois de ter explicado aos alunos, não sei se melhor ou pior, uma parte da lógica proposicional, perguntei-lhes qual o valor de verdade de uma frase: 

"a validade refere-se ao tipo de relação existente entre as premissas e a conclusão de um argumento e é independente do que é afirmado nelas." 

Seguidamente sugeri: levante o braço quem achar que a frase é falsa, e já agora, aproveitamos também para descobrir o valor de uma parte significativa da democracia, vamos contar quem é a favor da falsidade da frase para concluirmos ou não se a maioria tem ou não razão. 

No início da votação alguns alunos não levantaram o braço, supostamente consideravam a frase verdadeira, o que era correto. Pouco depois, um cada vez maior número de alunos foi levantando o braço, até que, finalmente, todos o fizeram. Houve um fenómeno de contágio típico das votações de braço no ar. Por isso, quando se trata de escolhas sérias em democracia, deve o voto ser secreto e antecipado por um período e condições propícias à reflexão e ao conhecimento, principalmente quando se elegem pessoas e para que as escolhas sejam baseadas na informação e na formação sólida de ideias ou opiniões. Os alunos facilmente reconheceram que, por vezes, as maiorias não têm razão.

A popularidade e a eleição não são sempre resultado de uma reflexão suficiente. A história diz-nos, por exemplo, que nas eleições de julho de 1932, os nazis tiveram o seu melhor resultado até então, obtendo 230 lugares no parlamento, tornando-se o maior partido alemão, sob a direção de Adolf Hitler, e alcançando um poder que desembocou num processo de domínio e de violência que culminou  na segunda guerra mundial.

A democracia é um valor em si mesma, na medida em que é partilha constante, baseada no respeito absoluto pelo outro, assumido por todas as partes envolvidas em processos decisórios. Afinal só assim é que a democracia pode ser o que originariamente foi para os cidadãos de Atenas na Grécia antiga: condição ininterrupta de igualdade, liberdade e responsabilidade, poder do povo, conjunto de cidadãos informados e conhecedores do que está em causa nas escolhas necessárias.

Por isso o caminho para se alcançar a democracia plena (quase uma utopia) está por realizar: há por todo o mundo muita abstenção e muitos votos simplesmente emocionais e pouco racionais e há também muitos assuntos tão importantes que nem sequer vão a eleições.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

sinais dos tempos ii

 E quando chegar a nossa vez? Achamos ingenuamente que a nossa vez não chegará. Somos competentes, mentalmente saudáveis, damos o  nosso melhor todos os dias, temos esperança, vivemos num pequeno país onde o índice de desenvolvimento nos coloca em 43.º lugar a nível mundial, num mundo de duzentas e seis nações. Encontramo-nos muito acima da média. Mas também é um facto que temos descido nos últimos tempos, somos aliás, um dos poucos países que em termos mundiais tem vindo a descer. Esta descida aos infernos para muitos é uma aparente subida aos céus para alguns. Jovens altamente especializados que entraram no mundo do trabalho pouco depois dos vinte anos e que agora perfazem entre trinta e quarenta anos de idade regressam a casa dos pais com o desemprego nas mãos depois de quinze ou vinte anos de trabalho numa carreira incerta.

A capacidade instalada por unidade de produção industrial portuguesa que ainda resta aumentou exponencialmente nos últimos trinta anos. Uma empresa que há trinta anos dava trabalho a mil operários, hoje, na segunda década do século XXI, com um quarto dos "colaboradores", consegue produzir dez vezes mais: resultado da laboração contínua, vinte e quatro horas por dia, e da automação imposta pela redução de custos. De facto as linhas automatizadas, os robôs e os computadores não dormem, não adoecem, não envelhecem, não precisam da segurança social ou do serviço de saúde, não protestam, não fazem greve, não têm filhos nem pais para cuidar, não pensam.

 Para onde foram os outros três quartos de pessoas? Uns para trabalhos precários, ao quilómetro, à peça, ao dia, ao mês, à semana, no nosso país, outros para a emigração e outros muitos ainda para o desemprego estrutural ou de longa duração. O tempo da rebelião das massas de que nos falava o filósofo espanhol Ortega Y Gasset parece estar a chegar ao fim. O enfraquecimento individual em termos culturais e económicos leva a um rede social cada vez mais ténue, à quebra de solidariedades, ao entorpecimento da criatividade, à anomia, ao desespero, à revolta desorientada. Parece portanto que este não é o caminho da luta contra o absurdo mal estar desta civilização. Talvez valha a pena tentar o inverso: colocar as novas tecnologias ao serviço de todos e não apenas de alguns. Estes não deixariam de viver bem e provavelmente a sua vida alcançaria um sentido mais pregnante e de redobrado interesse.

Qual é o sentido de ser dono do mundo? Ninguém o será. A história já mostrou abundantemente a glória e a miséria de muitos que, devendo tudo à humildade, sucumbiram num processo que os levou dos píncaros da fama e do poder para o poço sem fundo do esquecimento e da degradação mais abjeta, veja-se, por exemplo, os grandes ditadores como Mussolini ou Hitler e mais recentemente Saddam Hussein, Kadafi, o empresário britânico Robert Maxwell ou o banqueiro Bernard Madoff.

Há quinze anos atrás discutia-se nos meios do trabalho, tanto os dirigentes das empresas públicas como os das privadas, tanto os partidos políticos como os sindicatos, a altíssima probabilidade da necessidade de se reduzir o horário de trabalho para todos os que viviam exclusivamente dos rendimentos relalivos ao seu próprio labor. Seriam trinta horas semanais, vinte e cinco, vinte e duas. Manter-se-iam os rendimentos e aumentar-se-iam os salários agora indignos e investir-se-ia, de uma forma gradual e sustentável, na educação e na cultura. Através de um excelente sistema fiscal e de um estado forte (o Estado deve representar todos os cidadãos) corrigir-se-iam profundas desigualdades. Potenciar-se-ia a iniciativa pública e privada, surgiriam novas formas de atividade económica fundamentalmente baseadas na diversidade cultural.

Seria o modo de reduzir o número dos sem ocupação com vista ao pleno emprego e de, ao mesmo tempo, libertar mais tempo a cada um para o que dá sentido à vida da maioria dos cidadãos: arte, ciência e cultura, amigos, família. Mas, para tal seria necessário encontrar no poder decisório alguém que representasse efetivamente esta legítima pretensão, que é uma necessidade popular. Isso não aconteceu, o que mostra que há uma verdadeira crise de participação cidadã e uma crise de representação.

William Shakspeare (1564-1616), genialmente reconheceu que o mundo é um grande palco onde os homens e as mulheres são atores. Estes representam representando-se a si próprios e aos outros que aparentemente neles depositaram a confiança. Mas quebrou-se o elo de verdade entre o príncípio da ação e o ator, o que levou a um péssima representação. Muitos homens e mulheres tornaram-se maus atores, nomedamente muitos dirigentes políticos que um pouco por todo o mundo já não representam nada ou então representam apenas o poder de uma realidade: o dinheiro e a alta finança.

 Por isso, como o nada é o vazio, encontramo-nos em plena era do vazio como profetizou o filósofo francês Gilles Lipovetsky num dos seus ensaios sobre o individualismo contemporâneo. O caminho a seguir será com certeza aquele que nos leva à saída do consumismo e do individualismo com vista à entrada no consumo ponderado e moderado e à solidariedade social e intergeracional.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

sinais dos tempos i

Vivemos em crise. As ruas das vilas e das cidades cada vez mais povoadas de gente a correr sem tempo para nada. As lojas, os cafés, os restaurantes, os consultórios, os cabeleireiros, as manicuras dessas artérias (que nome bonito, no sistema circulatório, são elas que transportam o sangue oxigenado, se não me falha a memória) encontram-se cada vez mais fechadas, mais inertes. Trespassa-se, vende-se, aluga-se, fechado, encerrado. Para onde vão as pessoas que aí trabalharam? Que vidas seguiram? Emigraram, foram parar à sopa dos pobres, arranjaram um trabalho de oito horas por dia e duzentos euros ao mês, suicidaram-se? Este assombro podemos constatá-lo e parece irreversível. Estamos na era da internet, da fast-food, da precarização. Tudo é descartável, os seres humanos já não pertencem a essa miragem que se chamou humanidade. Ser humano é agora também isto, estar preparado para uma ignara reciclagem a qualquer momento. Os cómicos dizem-nos, as pilhas para o pilhão, o vidro para o vidrão, os velhos para o velhão. E nós ainda sorrimos de sorriso cáustico como se tivéssemos engolido à força óleo de fígado de bacalhau. E continuamos a dança da vida adiada, com mais horas de trabalho, menos tempo de convívio com os nossos pares e amigos, fugases momentos de família, menos poder de aquisição. Não há tempo para nada. E se tivermos a ousadia de tomar um café e saborear um pastel de nata na esplanada ainda nos arriscamos a ser condenados em público por ociosidade, por preguiça, por viver acima das possibilidades, por indigência. A tendência para mais trabalho para menos gente e desemprego forçado para cada vez maiores multidões acentua-se todos os dias. As máquinas, essa parafernália de inteligência artificial, vão vertiginosamente retirando lugares de trabalho às pessoas. Computadores, robôs, redes e linhas de produção automatizadas substituem sistematicamente o trabalho humano. Muitos seres humanos deixaram de fazer falta ao sistema produtivo. São descartados, lançados no lixo social, abandonados à sua sorte, num mundo onde uma em cada oito pessoas sofre de subnutrição aguda, onde cresce inexoravelmente o número de pobres nos países desenvolvidos.
A caixa de pandora que libertou todos os males contém  fechada a esperança, a única coisa que resta aos oprimidos e alienados. Não se compreende porque não se aproveitou a inteligência humana que descobriu as leis da natureza e com elas criou tecnologias que substituiriam o trabalho humano monótono e repetitivo. Não se entende por que é que as máquinas substituem efetivamente as pessoas nessas tarefas e não as libertam para aquilo que pode ser verdadeiramente humano: a arte, a cultura, as viagens, o turismo, o lazer, a literatura, a música e a poesia, o desporto e a ciência. A tendência continua a ser a desumanidade e a alienação. O sistema de distribuição das riquezas torna alguns obesos mórbidos e lança na fome milhões. Podemos assistir a tudo isto sem nada fazer, como se fôssemos cúmplices do mais hediondo dos crimes e permanecêssemos caladinhos? E quando chegar a nossa vez? Gritaremos aos quatro ventos que ninguém nos salva? Que fazemos nós aqui e agora para nos salvarmos?

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

falar

palavras,
pó do universo.
demiurgos e seus destinos:
dispomo-las ao sabor dos ventos,
peças de dominó,
tombarão
num espetáculo efémero,
as nossas vidas.
o sopro telúrico
trá-las consigo,
ondulantes batéis.

beijos e abraços,
palavras retinindo
abrindo clareiras
sossegando o vórtice
delas somos inteiramente,
livres não se deixam alienar
o nosso destino é fal(h)ar.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

culpa

a segunda invenção
mais poderosa
logo a seguir à culpa
é o pecado
quem o inventou e o incutiu
desejou secretamente
dominar os outros

daí à guerra santa
vai um passinho

dignidade


os pobres podem comer 
carne de cavalo apreendida pela asae, 
autorizada pelo ministério público
com o beneplácito do governo
beef lasagne special price
os ricos não querem ingerir gato por lebre
os pobres não podem ter preconceitos
estereótipos alimentares
os ricos esses sim
têm para além do direito aos direitos humanos
o direito a carne de vaca verdadeira
porque os ricos têm muito dinheiro
e o capital, como é lógico
compra toda a carne
todo o tipo de músculo, de febra
para os pobres há as instituições de caridade
diz-se agora de solidariedade
almôndegas, canelones, hambúrgueres
nomes finos para gente grossa
por que não de cavalo em vez de vaca
não há cavalos santos mas há vacas sagradas
e agora, para quem é cavalo basta
os ricos querem cavalos mas para andar a cavalo
e quando não, gostam de cavalgar os pobres
mas cuidado, os pobres não são cavalos 
para serem cavalgados e há-de haver um dia
em que esses governos, máquinas de fazer pobres
se hão-de estampar contra a realidade
porque os pobres não têm dinheiro
mas têm dignidade.

terça-feira, 16 de julho de 2013

espada de Dâmocles


 Pintura de Richard Westall (1812)

podem servir-nos
em taças de oiro
o néctar e a ambrósia
no chalé da Riviera francesa
podem prometer-nos
a felicidade individual
o paraíso na terra
as eternas primaveras
todas as mensagens
de esperança
o fechamento absoluto
da caixa de pandora
as curas de todas as doenças
a descendência mais forte
e mais terna
o cuidado dos desvalidos
não acreditamos:
a espada de Dâmocles
sempre esteve presa por
um fino fio de cabelo




segunda-feira, 15 de julho de 2013

o pão e o queijo



miríades de olhos apocalíticos
universal teia de intenções
os sentidos já não são poesia
imenso nevoeiro
onde as mónadas se difundem
pelo olho gigante
do grande irmão
a beleza do mundo
esvai-se no governo
da potente máquina
nem tudo está perdido
palavras novas
músicas do mundo
beijos e abraços
trabalho feliz
caminhar pelas veredas 
das florestas
de mãos dadas
tão humildemente
como a navalha de occam
que corta a direito
o pão e o queijo
que me trazem à lembrança
o trigo e as cabras
as espigas e as ovelhas
as foices e as vacas
e as noites de luar
nas pastagens e nas searas

sexta-feira, 12 de julho de 2013

labirinto




tenho a impressão
imprecisa
cinzenta e parda
de que o mundo não é
como o vejo 
poderá ser outra coisa
talvez uma força escondida
fantasma
serpente que desliza
por entre os tojos
sem ser vista, 
escorpião
que ferra tenazmente
quem o pisa
amor que escorrega 
como uma enguia
das mãos do pescador

a realidade não fede
simula, reflete-se
no espelho do mundo
engoda e espanta
no sono e na vigília
no amor e no ódio
no estertor e nas horas
felizes da vida
procuro-a
às voltas
no labirinto do minotauro
qual teseu desmemoriado
pelo amor ofuscante de ariadne

sexta-feira, 5 de julho de 2013

apagogia

as coisas transfiguram-se

como crisálida
em borboleta  

como óvulo e espermatozóide
em zigoto

como homem e mulher
 em amor

como homem e homem
em amor

como mulher e mulher 
em amor

como  mentira
em verdade 

como flor 
em fruto

o amor é possível
porque o amor é impossível

segunda-feira, 24 de junho de 2013

amizade

amizade
o mais suave veludo
a mais forte seda de aranha
sintética nipónica
infinita, finita
faminta, degustada, doirada
atribulada,
vermelha como repuxo de sangue
amarela  de amor perfeito
azul oceânico de calma celeste.












sábado, 8 de junho de 2013

nuas

o nu é o vestido 
com os olhos da alma


         as palavras nuas falam
sobre o silêncio

manto que cobre a linguagem

vestido ou despido 
até à dissipação final

silêncio

silêncio 
folha branca completa
donde emergem as
palavras nossas amigas

silêncio
planície alentejana 
ensinou ao vento e às searas
o seu canto sussurrado 

silêncio
terra prenha de memórias
aprendidas e ensinadas
escritas com o sangue dos avós





domingo, 26 de maio de 2013

mundo


o mundo não tem
princípio nem fim
é uma matriosca russa
a vida está na morte
e a morte na vida
Deng Xiaoping a morrer
disse, vou ter com Marx
Marx  em agonia
acreditava que ia ter com Demócrito
e nós que devagarinho morremos
em que é que acreditamos?

preto no branco





preto e branco
escuro e claro
a cor negra não é cor
tudo absorve
o branco é todas as cores
o preto no branco
é o tudo e o nada

ler um livro 
que grande prazer 
exercício do contraste
festa do preto e do branco
na folha branca 
sustentáculo de toda a escrita
onde cabe todo o universo

a sinfonia das palavras
pretas, escuras 
sobre fundo branco
é imagem, palco
matiz, consciência
paz e guerra, fogo
água, ar e terra


quando escutamos
o preto no branco 
tudo nos é dado
florestas crepitando de vida
incêndios de paixões
vidas paralelas
mundos por descobrir

nas letras, palavras, pausas
num ritmo musical
para além do bem e do mal
desvendamos o belo e o sublime
em todos os tons de humanidade
do mais pesado ao mais humilde.

o branco não rima
mas não é menos verso
a poesia é como a vida
não há duas árvores
com os ramos iguais
e uma realidade come a outra

uma deixa-se comer
porque tem fome de ser comida
e a outra, mesmo sem voracidade
sem dó e com vaidade
assimetricamente
faz-lhe a vontade.