segunda-feira, 25 de setembro de 2017

filosofia e publicidade - Benetton

Resultado de imagem para benetton philosophyHá uma marca que aprecio, não pelo que vende, nomeadamente vestuário, mas pelas formas e características das suas campanhas publicitárias. São críticas, corrosivas, provocantes, fazem-nos pensar. Levam-nos a saltar dos carris do nosso pensamento e indicam-nos horizontes criativos nos quais provavelmente nunca havíamos pensado. Tal como a filosofia.

sábado, 23 de setembro de 2017

As ideias verdes incolores dormem furiosamente

 Há um problema sempre atual que nos leva à questão do sentido ou do significado. O que é uma palavra e que relação é que tem com a coisa? As palavras podem ser ditas e por isso escritas, ao serem proferidas não são mais do que sons articulados. Qual é então a relação entre som e significado?

      Ferdinand de Saussure (1857-1913), no seu célebre curso de linguística geral revelara que o signo linguístico apresenta duas faces como se fosse uma moeda, o significante ou imagem acústica e o significado ou conceito. Nesta relação não há margem para qualquer determinismo, o signo enquanto significante é arbitrário. Não há determinação universal para a palavra na sua relação com a coisa. Por isso o mesmo objeto é designado por sons diferentes consoante a língua usada. Car, voiture, carro, coche, designam um e apenas um conceito, o de carro ou automóvel. Não há portanto nenhuma ligação natural entre os sons e o objeto que designam ou indicam.
      Contudo as palavras surgem organizadas quando são proferidas, essa ordem é sintática e pode variar de língua para língua. A forma ou sintaxe e o conteúdo ou semântica geram infinitas possibilidades de combinação de palavras o que permite infinitas frases. Mas não se pode analisar um discurso, sucessão de frases, prescindindo de nenhum dos dois campos, sintático e semântico. 
      Se o fizermos corremos o risco de encontrar sentido onde ele não existe o que é absurdo e paradoxal. Atente-se no célebre exemplo de Noam Chomsky dos anos 50 do século xx: "Colorless green ideas sleep furiously", traduzindo, "As ideias verdes incolores dormem furiosamente". Do ponto de vista sintático poderemos dizer que se trata de uma frase bem formada, o que já não acontece se tomarmos a frase na perspetiva semântica, isto é, do seu conteúdo material.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

noite azul

Vi claramente numa noite azul
Um espetáculo digno de nota
Numa parede branca como a cal
Uma senhora aranha toda ciosa
Talvez esfomeada tecendo a teia

Esvoaçava incauta a borboleta notívaga
Alegremente ao som da aragem sob a luz
Da lua ofuscando o titilar dos pirilampos
Voltejava num vórtice hilariante sem fim
Como o parafuso de Arquimedes, o físico

Escondeu-se o aracnídeo no vão da alvenaria
Enquanto a mariposa batia as asas ousando
Desafiar o destino perante os olhos ocultos
Voava e revoava embriagada na sua beleza
Como se fosse a rainha do universo infinito

Nenhuma das partes desistiu do seu fado
Ao afastar-se o lepidóptero avança a aranha
Aperfeiçoando com destreza em rápidos movimentos
As malhas da sua rede mais fina e mais forte
Com o terrífico olhar esfíngico de caçadora

Num voo mais ousado e temerário
À procura da luz, fica presa a mariposa
Com as asas coladas na teia quase invisível
Foi transformada num rolinho apetitoso
Enleada como uma múmia egípcia

E assim termina a história da borboleta
Que era livre e dançava alegremente
À procura da luz numa bela noite azul
E que não conseguiu fugir ao destino:
Repasto para uma aranha sagaz.





domingo, 25 de junho de 2017

solidão

no centro do deserto
na noite mais funda do universo
só pérolas de estrelas distantes
átomos de gelo e ar veloz
me tocavam sob  luz transcendente 
nas ondas das dunas de estranha vida
deliberei atravessá-lo contigo
junto aos teus passos caminhei
aprendi a não ter medo da morte
a enfrentar a fúria dos fanáticos 
dos fantasmas,  das fomes, misérias e hipocrisias
teus olhos me vestiram na planura dos medos
tuas mãos me ofereceram o vinho puro
procedente de uvas cor de sangue 
numa taça de cristal 
sibilando amor em pleno vento

quarta-feira, 21 de junho de 2017

If Minds Had Toes - (O dia em que Sócrates vestiu jeans)

Wook.pt - O Dia em que Sócrates Vestiu Jeans
Sugestão de leitura


Título: O dia em que Sócrates vestiu jeans

Autora: Lucy Eyre

Data da 1.ª edição: Abril de 2007

Sobre a autora:

Lucy Eyre cresceu em Londres e estudou Filosofia na Universidade de Oxford. Conviveu desde muito cedo com escritores e argumentistas por ser filha do realizador cinematográfico Richard Eyre. Uma doença súbita conduziu-a a uma forma diferente de ver a vida. Dedicou-se, assim, à escrita.




Sobre o livro:


            O título da edição inglesa, “If Minds Had Toes”, (na edição brasileira “O Pensamento Voa - Descobrindo o prazer da filosofia”) é bem diferente do da edição portuguesa da “Casa das letras”. Talvez os jeans sejam símbolo de bem-estar, de prazer de viver e de liberdade. Sócrates, celebérrimo filósofo que deu a vida por um ideal de justiça, ao vestir jeans estará a comprometer-se numa forte e actual ligação à juventude, para confirmar o seu verdadeiro carácter. Lembremo-nos de que uma das acusações que o levaram à condenação à morte foi a de corromper a juventude, o que confirma a sua ocupação pedagógica.
Os temas fundamentais da filosofia presentes no Mundo das ideias (uma alusão à filosofia do célebre filósofo grego, Platão, e ao seu mestre que nada escreveu, Sócrates), a moral, o livre-arbítrio e a felicidade, são alvo de uma sucessão de diálogos entre Bem Warner, um adolescente típico, Lila, uma mulher jovem e atraente, e os grandes e determinantes pensadores-filósofos de sempre. Ela leva-o, por meio de um bizarro convite, para um lugar inteiramente desconhecido, o “Mundo das Ideias”, cujo presidente é Sócrates, o mestre de Platão. Curiosamente, Sócrates fez uma aposta com o seu rival e grande filósofo, Wittgenstein, filósofo austríaco considerado um dos maiores do século XX (contribuiu com diversas inovações nos campos da lógica, filosofia da linguagem e epistemologia.). Sócrates tem todo o interesse em ganhar a aposta e, para tal, terá de convencer Ben Warner de que a filosofia pode melhorar a sua vida. Então o nosso jovem acaba por entrar num mundo paralelo e por encetar uma viagem mental às grandes questões da filosofia que são, entre outras: O que é o mundo? O que é a felicidade? A morte é ou não o que de pior nos pode acontecer? Teremos vontade própria ou obedecemos a um destino preconcebido por um ser que tudo criou e em tudo manda? Em que é que nós podemos acreditar? Qual a diferença entre verdade e mentira? Porquê os dilemas morais?
Por exemplo, a propósito do que é errado ou não e das regras morais:
“- Se é possível dizer que não faz mal infringir uma regra (…) se com isso evitar um desfecho verdadeiramente mau, então qual é a vantagem de ter regras? Ou as regras são invioláveis e é por isso que as temos, ou podem, por vezes, ser infringidas, caso em que deixam de ser regras.
- Num dilema moral como deve ser (…) seja o que for que fizermos envolve sempre fazer qualquer coisa errada. É óbvio que não existe uma resposta fácil. Se houvesse não seria um verdadeiro dilema.” – (pág. 229)
Realmente o nosso jovem escapa a uma vida entediante e desperta para a sua importância através da aprendizagem dos conceitos básicos da filosofia. Para além disso conclui, ou faz-nos concluir, que a filosofia é inevitável. Toda a gente necessita de uma filosofia de vida. Toda a gente precisa de saber em quê e porquê acreditar nisto ou naquilo. Toda a gente tem um caminho a trilhar e sem filosofia não sabe nem o porquê nem o para quê desse caminho que é sempre resposta a perguntas existenciais.

      Este livro aconselha-se a toda a gente, nomeadamente às pessoas inteligentes, divertidas e cativantes, mas também àqueles que, não o sendo, apreciam a originalidade, a diversão e a inteligência. No fundo, este livro mostra-nos que qualquer pessoa pode ser ensinada a pensar. Para tanto basta lê-lo e deixar-se encantar com a fluidez da escrita de  Lucy Eyre.

Boa Leitura.

terça-feira, 20 de junho de 2017

De que se ocupa a filosofia?

A filosofia ocupa-se de diversas questões, classificadas segundo domínios específicos – o pensamento, o ser, o conhecimento, a ciência, a moral, a linguagem, a beleza, a existência, Deus, etc. A estes domínios correspondem disciplinas filosóficas particulares. Todas estas interrogações e inquietações nos revelam que as preocupações da filosofia não excluem nenhuma das dimensões em que se move a existência humana. Kant resumiu em três interrogações o âmbito da filosofia: Que posso saber? Que devo fazer? Que me é permitido esperar? Todas estas questões podem ser sintetizadas numa só: O que é o Homem? A resposta à última questão pressupõe a resposta às anteriores. O Homem é o grande mistério do próprio Homem, já que todos os mistérios decorrem, afinal, das suas inquietações. Importa, por conseguinte, não criar fronteiras estanques entre os diversos problemas filosóficos. Eles encontram-se inter-relacionados, devendo ser abordados de forma unitária e integradora, já que dizem sempre respeito àquele que os formula: o ser humano.

domingo, 28 de maio de 2017

O que torna a ciência tão especial e confiável?

A ciência é tão especial porque é o conjunto das áreas do conhecimento  que se acredita ser mais próximo da verdade. É ao mesmo tempo a atividade que responde com lógica às perguntas sobre o modo como o mundo funciona. Responde também à curiosidade inata dos seres humanos e produz tecnologias com um alto grau de eficácia na resolução de problemas humanos relacionados com a saúde, com a organização das sociedades, com a aprendizagem, com os modos de produção, com as comunicações, com o planeta terra, com os animais, com os seres humanos em particular, com o universo. A ciência ajuda os seres humanos a viverem mais e a compreenderem-se melhor, de tal forma que, em determinadas áreas o seu grau de previsibilidade é elevado. A ciência divide-se em áreas, ciências sociais e humanas, ciências físico-naturais e lógico-matemáticas. As ciências são tão especiais também porque são interdependentes. Os cientistas não querem deixar nada de fora do seu objeto de estudo. Para cada área científica há um objeto de estudo diferente, a realidade pode ser vista, estudada, analisada de muitas perspetivas, pode ser decomposta em partes muitíssimo pequenas. Por isso, para cada área científica há um método próprio baseado num método geral, que de certa forma torna a ciência produtiva, rigorosa, preditiva. A ciência estuda objetos particulares e por isso ela pretende ser objetiva e para atingir essa objetividade, o que lhe garante uma maior proximidade  à verdade, faz-se, na maior parte dos casos, com investigação em equipa, o que lhe confere uma característica impreterível: a intersubjectividade. Os métodos das ciências em determinadas áreas levam à formulação de proposições que expressam leis ou regularidades que são aceites universalmente. Este caráter universal das leis científicas dá-lhes uma enorme força e por isso também contribui para que haja por elas um enorme respeito. Ao mesmo tempo os cientistas têm a sensação de que o seu objeto de estudo é inesgotável, por um lado porque muda o objeto, por outro porque muda o cientista e todo o arsenal de instrumentos que lhe permite ver mais fundo, com mais rigor, eficácia e minúcia. Este caráter da ciência que se sabe tarefa sempre inacabada confere-lhe um grau de humildade que a torna meritória, confiável e respeitável.

domingo, 14 de maio de 2017

livre-arbítrio

O livre-arbítrio para Agostinho, filósofo cristão (354-430) é o fundamento da liberdade mas não se identifica com ela, aquele é a possibilidade de escolher entre o bem e o mal e esta é o bom uso do livre-arbítrio. Este fundamenta-se no inesgotável significado das coisas e é expressão da vontade, aquela resulta de uma faculdade a que podemos chamar razão. 
O livre-arbítrio caracteriza tudo o que é.Tudo o que é tem por essência o ser sendo. Heraclito disse: tudo é movimento. O livre-arbítrio funda-se na "coisa-em-si" de Kant, a manifestar-se. Esse númeno, por oposição a fenómeno, é a vida a pulsar, a metamorfose de formas, de corpúsculos, de energias. Tal vida, no seu coração, é inacessível. Escolho contorcer-me quando sinto uma dor aguda fabricada pelo meu cérebro na minha coxa esquerda. Não sei se alguma vez será possível encontrar a origem da dor nem se é física ou psicológica. A dor pode ser apenas uma contração dos músculos devido a uma combinação estatisticamente pouco provável de algumas sinapses.Os deterministas diriam que a contração que sofri não foi decidida por mim e que a ela não me poderia furtar.O ser humano singular que cada um de nós é, é para si e para os outros "coisa em si". Ninguém conhece o seu destino exato. Toda a gente sabe que é a morte, mas esta negação de todas as possibilidades existenciais é apenas um conceito. Tanto mais que há quem acredite na continuação da vida do indivíduo depois da dissolução do seu corpo. O determinismo é uma doutrina pobre, não permite esclarecer a natureza do indivíduo homem. O seu contrário, como afirmação da premissa do livre-arbítrio é muitíssimo mais interessante. Contudo requer esclarecimentos. O que significa a palavra "livre"? Parece ser a característica de tudo aquilo que é imprevisível. Podemos falar de queda livre de um corpo. Contudo a queda, num determinado contexto razoavelmente conhecido, é previsível e assente numa regularidade, por exemplo, uma aceleração de 9,8m/s2, a chamada lei da gravidade. Mas, apesar da probabilidade ser de quase cem por cento, ainda assim, não há uma certeza absoluta de que será assim ou de que será sempre assim. No indivíduo humano cuja diferença fundamental em relação a uma rocha em queda é a sua complexidade, isto é, o processo de relação entre todas as partículas ou corpúsculos que o constituem, a previsão é mais incerta. Na ciência mais exata não há previsão imbatível. Por isso o livre-arbítrio, independentemente de se basear ou  não na livre-escolha, é uma realidade que torna o mundo muito mais interessante que, tal como a arte, é inevitável e torna tudo, para além de estranho, espantoso. De facto vemos tudo pela primeira vez, e até este momento, não consigo intuir de outra maneira.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

incompleto

nasci com um destino incerto
cujo caminho desconheço
de que palavras fui concebido, não sei
talvez gerado sem esboço ou plano
como as ervas dos campos baldios
erro à moda dos planetas
como partículas de pó na sua agitação fervilhante
dispo-me  de mim, na solidão, acompanhado de sombras
de luzes, de pontos, de cores,  de sons, de formas
minúcias de memórias agrestes
avisto feras que se comem umas às outras
desenho animais amestrados que não tomam banho
treino a memória dos dias da primeira infância
quando o mundo era todo calor das cinzas da lareira
e as corridas, rápidas, ao som de gargalhadas
desenrolavam o fio condutor da vida, 
tudo isso poderia dar um poema 
necessariamente incompleto...

terça-feira, 11 de abril de 2017

A escola e a educação

Segundo a etimologia, educar, significa “conduzir para fora” ou "direcionar para fora”. O termo latino, educare, é composto pela união do prefixo ex, que significa “fora”, e ducere, que quer dizer “conduzir ou “levar”. O significado do termo (direcionar para fora) era empregado no sentido de preparar as pessoas para o mundo e viver em sociedade, ou seja, conduzi-las para “fora” de si mesmas, mostrando as diferenças que existem no mundo. 
   Fonte: http://www.dicionarioetimologico.com.br/educar 

 O tema "educação" é tão velho como a humanidade e é problemático porque há profissionais da educação. Querem bons salários, dignidade, carreira, reconhecimento. Justamente, tal como quaisquer outros profissionais de outras áreas. Profissionais são aqueles que auferem uma remuneração pelo exercício das suas atividades. Como há sempre dinheiro envolvido na “educação”, porque há profissionais, mantém-se a polémica do valor pecuniário dessa atividade. É uma questão que não se resolverá definitivamente dado que estão em jogo interesses contraditórios: os de quem paga e os de quem recebe. A solução possível assemelha-se a uma negociação permanente. 

     As palavras professor e profissão estão intimamente ligadas: professor significa, desde longa data, aquele que apresenta novos assuntos. A novidade é condição sine qua non para se ser professor. Isto implica necessariamente formação permanente ou contínua. Mesmo que não seja formal ela é impreterível para a sobrevivência dos professores. Profissão é um termo que provém do latim professione, que, para além de significar “declaração”, também significa “ofício”. Na Roma antiga os profissionais estavam agrupados em associações e na Idade Média formavam associações religiosas e de segurança social às quais prestavam juramento.
     -Fonte:https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/professor-e-profissao/20457 

     Os professores exercem quase sempre a sua profissão na escola. Esta não é um local de trabalho como tortura, é um espaço relacional onde as pessoas exercitam e treinam o corpo e a mente com vista a serem educadas. Professores, alunos, administrativos e assistentes operacionais, convivem num espaço comum onde deverá acontecer sistematicamente a educação de todos. A disponibilidade para ensinar e aprender é a essência da escola. A escola não é uma estrutura arquitetónica, não é um edifício, é um sistema multipolar de relações humanas de grande complexidade. Exige formação moral e fundamentação ética de todos. Espírito crítico, entreajuda, solidariedade e boa comunicação, são características da Escola (com E grande). Às vezes defende-se a escola como preparação para o futuro, o que não passa de um truísmo, todos os momentos de qualquer vida, dentro ou fora da escola, são preparação para o futuro. Ninguém conhece nenhum futuro mas sabe-se que o tempo que há de vir deverá ser melhor do que o passado. Para projetar o “futuro” é necessário analisar as memórias e querer saber o que se quer. A escola pode ajudar a preparar melhor o futuro. Outra interpretação que se dá da escola é que é um meio para atingir um fim, isto é, um instrumento de instrução. Mas, se a escola são as pessoas relacionando-se de acordo com certas regras, não faz sentido ser considerada instrumento seja do que for. As relações humanas não são instrumentalizáveis, se o forem deixarão de ser relações humanas. Passarão a ser relações desumanas baseadas na instrumentalização, na coisificação do outro, na lógica do dominador/dominado, colonizador/colonizado. 
     A escola deve ser, como qualquer atividade humana, prioritariamente, um fim em si mesma, e não apenas um meio para atingir fins exteriores a si própria. O propósito da escola é também preparar para a vida, para o mercado de trabalho, para qualquer outra escola. A escola é vida. Toda a gente, por viver, já está preparada em maior ou menor grau para a vida ou para o mercado. A vida humana é feita de trocas químicas, biológicas, sociais, culturais e económicas. Por isso, a vida prepara a vida. 
     A escola só pode ser expressão de liberdade e por isso de responsabilidade, de cultura, de ciência e de criatividade, se não for assim não será escola, mas outra ordem/desordem qualquer. A Escola organizada, elegante e com harmonia é muitíssimo mais interessante e aparentemente mais difícil, tal como uma orquestra. Não tem que ser um paraíso ou uma utopia, estes conceitos dizem respeito apenas a realidades simbólicas que fazem com que se avance no sentido do horizonte. São uma espécie de motor que leva a que, positivamente, pensemos e andemos por uma inquietude de só nos sentirmos bem onde não estamos. Por isso professores e alunos viajam de muitas maneiras. O professor é um viajante que mostra aos alunos algumas das suas ideias sobre as suas viagens físicas e mentais. Exerce o seu ofício na escola e aí faz as suas declarações a todos quantos os necessários, não apenas aos alunos. Não é um colonizador dono de toda a sapiência a impor as suas verdades, também não é um colonizado, a sua função não é obedecer, mas ensinar. O professor procura, tanto na vida como na sua área específica, estar na crista da onda. Procurar vistas largas e a linha do horizonte, dirigir-se para lá, sem perder a paciência, com os alunos remando consigo, é o preceito fundamental do professor, assim consegue mostrar algumas novidades aos jovens acompanhantes da sua jornada. 
     Há quem encare a profissão de ensinar como uma missão, o que me faz lembrar o filme "Missão" de Roland Joffé de 1986. A ação decorre no século XVIII, na América do Sul, onde o padre jesuíta Gabriel (Jeremy Irons) dirige uma missão na tentativa de converter os índios da região. Ora, o professor não é um missionário e não tem por função converter ninguém. Para isso teria de ser o contrário de um professor: um manipulador. Os alunos não são índios à espera de conversão, são pessoas à procura da sobrevivência com o menor esforço, o maior prazer e a menor dor, isso é natural. O exercício do professor é ser modelo ético na relação com os outros, nomeadamente com os alunos, e exercer a sua "profissão de fé", que de algum modo se baseia em crenças verdadeiras bem justificadas. Algumas são as seguintes: os alunos são seres vivos racionais e emocionais em crescimento, alguns dados da neurociência mostram que o seu cérebro só está “completo” por volta dos 27 anos de idade; os professores, tal como os alunos e toda a gente, estão em constante mudança, o que mostra que não há relações fáceis, aquele que era ontem um, hoje é já outro; a relação professor-aluno está sempre contaminada positiva ou negativamente por outros profissionais; muitas mudanças físicas e mentais são dolorosas, mesmo as desejáveis; a relação em que um dos polos (alunos ou professor) ou os dois, mostram inflexibilidade total, é violência física ou psicológica; numa relação ambas as partes devem ser flexíveis, porque assim são mais fortes e resilientes; numa relação o outro nunca deve ser instrumentalizado, as pessoas não são coisas; o próprio não se deve instrumentalizar a si, estaria a ser um exemplo antiético; a investigação permanente faz-nos sentir melhor e é imprescindível. 
     Muitas mais crenças verdadeiras com boas justificações poderiam ser apontadas, mas se pesquisarmos, encontramo-las em diferentes áreas científicas e filosóficas, nomeadamente psicologia, sociologia, ética, psicopedagogia, didática, biologia, etc.. 
     Em jeito de conclusão: o propósito da escola, como relação de referência, é o respeito absoluto entre todos os seus atores, a vida aí vale pena e deixa saudades, de tal modo que ninguém hesitaria em repetir as experiências que nela viveu. A escola assim é uma escola intemporal, a aula ou a atividade passou demasiado depressa e há vontade de repetir a experiência. É uma escola com imaginação porque tem razão e emoção. 

Pedro Reis 
de Abril de 2017 

terça-feira, 7 de março de 2017

Quem sou eu?

sou a luz que entra em mim
a calma do inverno quase no fim
sou o que vejo, o que sinto
o doce veludo das minhas botas
a transparência das lentes por onde olho
o verde das folhas quietas de que respiro
sou as formas das tuas mãos
as ondas do teu mar e os pensamentos dos teus peixes
sou o louco da colina a sentir o vento
a ver o por-do-sol enquanto a terra gira
sou o trinado dos pássaros invisíveis
a leveza do corredor incansável na longa praia
a maresia dos crustáceos da maré vazia
sou do tamanho do que vejo
mas não sei a dimensão do que gera o que me é dado
não sei o que sou, quem sou nem para onde vou
por isso a minha vida é agradável 
como o voo de um dente de leão
semeando brilho branco suave no ar
caindo, caindo, devagar, devagar



sábado, 4 de fevereiro de 2017

coisa em si

           Kant apontou-nos no final do século XVIII uma evidência não evidente, a coisa em si, a autêntica realidade que não é cognoscível e é ao mesmo tempo a condição e o fundamento do conhecimento. Kant não dispunha dos instrumentos de que hoje nos servimos para sondar tanto o que nós somos como o que nos rodeia: telescópios como o Hubble, lançado em 1990, tomografias computorizadas, microscópios eletrónicos, sismógrafos de alta sensibilidade, etc. As ciências neurológicas praticamente não tinham nascido, Darwin e Freud também não. 
     Kant acreditava na existência de uma alma racional e numa razão pura e por isso era um otimisma irreprimível. Tudo o que fosse mau e imoral tinha uma explicação: a inclinação fundada na nossa animalidade estaria sempre em confronto com a razão pura prática.
     Tal como Platão, Agostinho e  Descartes, Kant deu-nos a entender que o maior dos males é a ignorância. Hoje ainda há quem assim pense. Por isso o conhecimento e tudo o que lhe diz respeito, a gnosiologia e a epistemologia continuam a ser um problema de grande monta que deverá ser se não resolvido, pelo menos mais bem compreendido.
A coisa em si hipostasiada por Kant teve outros desenvolvimentos como, por exemplo, a vontade no sentido de Schopenhauer, que ia contra o mundo como representação e significava o sentido da vida.
     Mas nós, aqui e agora, no século XXI, perguntamo-nos:
fará sentido exigir o conhecimento como forma de assegurar a moralidade? Há ou não conhecimento seguro, isto é, será legítimo manter a realidade como um mistério insondável, a coisa em si, de que fala Kant?

sábado, 14 de janeiro de 2017

Transparência



Na rua linear e transparente
Eleva-se o altar de vidro frio
De paredes translúcidas, duras
Sob a plasticidade mole de espelho
Azul turquesa, vermelho flácido
Retorcido pela fúria dos raios
Aço flamingo de brilho ofuscante
Sangue vivo refluindo, desafiando o sol
Vida fluida verde garrafa, verde nobre
Cada cor, cada dor, respaldo invisível
Rua torta, ser vivo, leão de porcelana
Cabana do fim do mundo onde moro
Onde sou e respiro, fecho os olhos e morro