quarta-feira, 14 de outubro de 2015

vento

à medida que o tempo passa
o vento ondeia a vida
as cristas das montanhas
acumulam camadas de pó
sobre a história da pele
que se vai desprendendo
no dia a dia, no rame rame
as turbas de sísifos carregando
subindo, forçando, gritando, rindo
as voltas que o mundo dá
a roda gigante passando
esmaga, subsume, absorve
máquina sem eixo de atrito
volante sem timoneiro
nem qualquer fundamento
é o vento que evola, voa e sobrevoa
e nos mantém cativos uns dos outros
abracemo-nos enquanto escutamos
o rumorejar das águas e a navegação das penas
beijemo-nos: quando os lábios se tocam
o universo urge e o sol nasce não para queimar
mas para aquecer e invocar a luz 
para o imenso oceano das trevas
então os corpos fundem-se
como o metal sob o desígnio de Hefesto
e a vida espraia-se por entre as marés
nas areias do sul de horizonte azul-turquesa
onde florescem cristais como palavras
conchas puras, almas despidas, sem destino, navegando...