sábado, 4 de fevereiro de 2017

coisa em si

           Kant apontou-nos no final do século XVIII uma evidência não evidente, a coisa em si, a autêntica realidade que não é cognoscível e é ao mesmo tempo a condição e o fundamento do conhecimento. Kant não dispunha dos instrumentos de que hoje nos servimos para sondar tanto o que nós somos como o que nos rodeia: telescópios como o Hubble, lançado em 1990, tomografias computorizadas, microscópios eletrónicos, sismógrafos de alta sensibilidade, etc. As ciências neurológicas praticamente não tinham nascido, Darwin e Freud também não. 
     Kant acreditava na existência de uma alma racional e numa razão pura e por isso era um otimisma irreprimível. Tudo o que fosse mau e imoral tinha uma explicação: a inclinação fundada na nossa animalidade estaria sempre em confronto com a razão pura prática.
     Tal como Platão, Agostinho e  Descartes, Kant deu-nos a entender que o maior dos males é a ignorância. Hoje ainda há quem assim pense. Por isso o conhecimento e tudo o que lhe diz respeito, a gnosiologia e a epistemologia continuam a ser um problema de grande monta que deverá ser se não resolvido, pelo menos mais bem compreendido.
A coisa em si hipostasiada por Kant teve outros desenvolvimentos como, por exemplo, a vontade no sentido de Schopenhauer, que ia contra o mundo como representação e significava o sentido da vida.
     Mas nós, aqui e agora, no século XXI, perguntamo-nos:
fará sentido exigir o conhecimento como forma de assegurar a moralidade? Há ou não conhecimento seguro, isto é, será legítimo manter a realidade como um mistério insondável, a coisa em si, de que fala Kant?