domingo, 28 de fevereiro de 2016

Ritual


depois de encetar o ritual diário
uma espécie de oração da manhã
olhando de relance as parangonas
para confirmar como algumas 
tocam a realidade que se esconde
atrás do nevoeiro infindo das coisas
na opacidade do papel
na escuridão do pensamento
parto para a fase seguinte
saborear o sal gorduroso das torradas
deglutir a cafeína e todos os aromas
só depois exponho a pele inteiramente nua
à chuva equatorial para me livrar 
sem pensar nisso, 
de umas quantas células
até que na próxima lua seja outro por fora
e quase outro por dentro
como máquina que se desconhece
cubro a pele de fibra
envolvo quase todo o meu ser com um véu
para que ninguém me descubra sem eu querer
depois torno-me figura pública e só dou
um pouquinho de mim ao mundo,  
uma quantas vibrações sonoras 
até ficar sem tempo e sem voz
retomo depois o ritual solitário
ingiro alimento de pobre saudável
descanso as articulações do pensamento
os ossos da alma e os músculos do cérebro
e sento-me na minha nuvem doce
desenhando as curvas da felicidade
na sombra dos amplexos que sonho
todos os dias até adormecer
todas as noites até amanhecer.

Tipos de conhecimento

O conhecimento por contacto consiste na nossa relação direta com a realidade e na representação mental que daí deriva. Posso afirmar que conheço Paris porque já vi, ouvi e toquei diretamente diversas partes dessa cidade e consequentemente tenho em mim um sistema razoavelmente organizado de imagens na minha memória de longo prazo sobre a complexa ideia de Paris. Em qualquer momento da vida em que me seja dada a possibilidade de evocar a cidade de Paris, o meu conhecimento por contacto permite-me dizer: conheço Paris. Mas, pelo facto de ter em mim uma série de imagens mentais de Paris posso asseverar que conheço efetivamente esta cidade?

O conhecimento do tipo saber-fazer ou saber como é uma competência ou um conjunto de habilidades pelas quais concretizamos um conjunto de movimentos observáveis, como por exemplo, saber andar de bicicleta, saber nadar ou saber tocar um instrumento musical. Este tipo de conhecimento só existe ma medida em que se mostra ou concretiza pela atividade física, é um conhecimento de natureza prática, revela-se através de movimentos ou habilidades de um qualquer sujeito e pode ser registado objetivamente. Mas será que nos conhecemos a nós próprios e aos instrumentos musicais só porque sabemos como usá-los? Este tipo de conhecimento adquire-se com exercício ou treino e mostra-se pelos movimentos corporais que conseguimos executar e certifica-se pelo feedback que conseguimos evidenciar quando nos perguntam se sabemos qualquer coisa: por exemplo, saber escutar.

O conhecimento do tipo saber-que ou proposicional é aquele que é expresso sob a forma de enunciados declarativos com valor de verdade. Este tipo de conhecimento é aquele que interessa fundamentalmente à filosofia e às ciências apesar de não ser exclusivo delas. O senso comum ou conhecimento vulgar apresenta-se também através de proposições, pode ser portanto, um conhecimento proposicional.
O conhecimento proposicional distingue-se claramente do conhecimento por contacto e do conhecimento como saber-fazer. Todos os tipos de conhecimento apresentados são necessários e até certo ponto interdependentes. Não poderei formular uma proposição de natureza empírica sobre um determinado fenómeno se não tiver partido de um conhecimento por contacto e este, por sua vez necessita do saber-fazer.


Será que só o conhecimento do tipo saber-que ou proposicional poderá contribuir para melhorar o mundo? A resposta a esta questão depende claramente do que entendermos por melhorar o mundo. Se adotarmos um ponto de vista platónico, isto significaria que um mundo melhor seria o mundo mais próximo do real/ideal, do verdadeiro mundo onde as formas perfeitas de justiça, beleza e bem dominam. Tal mundo só é detetável pelo pensamento e no pensamento. Todo o pensar filosófico se preocupa com a verdade de um modo ou de outro e se exprime através de juízos manifestados proposicionalmente, desta forma, sem conhecimento de tipo proposicional não seria possível melhorar o mundo, já que não teríamos um modelo ou um referente que nos permitisse efetuar alterações (melhorias). O próprio conhecimento do tipo saber-fazer está dependente do saber proposicional através do qual é possível reconhecer ou atribuir significado ou sentido àquilo que se faz.