sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

cabotinagem

     Há nas minhas entranhas uma máquina sofisticada de produzir sensações, um armazém escondido onde circulam as pessoas da minha vida. Etiquetam, registam e enviam, para qualquer parte do mundo, eflúvios das essências que nutrem a minha alma. Casa imensa com limites estabelecidos e sem espelhos numa caverna onde a luz é toda artificial. É aí, nessa caixa gigante, que encontro, com a lupa do espírito, as pistas de algumas memórias que me percorrem dos pés à cabeça. É aí que percebo o filme da minha estátua interior onde ainda consigo rever o espanto da criança que me habita. Foi também aí que germinou a vontade de poder sobre mim mesmo, o meu super-homem, que engendro e persigo a todo o instante. Nela estão contidos os amores vividos, os desejos e as cicatrizes dos caminhos. Nessa imensa arrecadação com cave, rés do chão e sótão, num imenso presente, estão compreendidos, respetivamente, o passado, o presente e o futuro. Não sei porque nasço, porque vivo nem porque morro. Porque choro no final dos filmes, porque rio como se a vida não fosse mais do que o eterno retorno da água à nascente e daí à foz. 
     Suspeito que o riso nasce da crença na morte como resposta ao último dilema, meta singular, síntese dum caminho sobre as pedras, às vezes aveludadas como as nuvens que distinguimos no céu azul. Caminho errático como o dos astros sobre os quais julgamos saber que morrerão. 
     Tão habituado ao céu estrelado acima de mim e à ideia da lei moral em mim e aos movimentos do céu à terra e da terra ao céu, fujo, em busca de consolo, para  a plateia onde avisto os outros, cada um com sua arte a oferecer-me o seu néctar. Assim ganho forças para o amor. Amo a navegação à vista e só raramente utilizo o periscópio da alma, aprecio os navegadores que olham mais para a terra do que para o mar. O veneziano Sebastião Caboto do século XVI entrou no rio Prata em busca da mítica Serra da Prata na América do Sul e foi-lhe reconhecido tanto êxito que batizaram com o seu nome uma maneira de navegar, a cabotagem. Velejar no mar sem entrar nos rios é andar mais perdido e errante. É terra o que os rios sulcam e é nela que temos a oportunidade de destruir os ídolos porque têm pés de barro. Sei-me um cabotino silencioso e mais que isto não posso ser, tanta a minha ignorância e a minha cegueira, por excesso de luz ou por falta dela. Sou um cigano existencial sem rito, Cronos devora-me as entranhas e as superfícies, depressa ou devagarinho, consoante os meus sentimentos de ator itinerante que não chega a conhecer o público nem para quieto onde acampa provisoriamente.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Publicidade e Propaganda Política

    O discurso publicitário e o discurso de propaganda política são formas argumentativas do quotidiano a que quase todas as pessoas estão sujeitas, principalmente através dos meios de comunicação social, tais como os jornais, a rádio, a TV e a Internet, nomeadamente as redes sociais e a blogosfera. Ambos os tipos de discurso têm por finalidade convencer ou persuadir o auditório. Tanto o discurso publicitário como o de propaganda política têm intensidades diferentes ao longo do tempo. Aquele, apesar de diariamente estar presente em muitos suportes, está fortemente sujeito a fatores como a época do ano, a eventos sociais e religiosos e a necessidades particulares de grupos específicos de pessoas, sejam temporárias ou permanentes. Já o discurso de propaganda política, apesar de parecer que as campanhas políticas são permanentes, pelo menos nas comunidades de cultura política democrática, pluripartidária ou não, é mais intenso quando há eleições ou quando surgem casos mediáticos despoletados pelos mass media ou outros agentes, e que entram no domínio público, de tal modo que são integrados na opinião pública.      Estes dois tipos de discurso evoluíram, principalmente a partir do último quartel do século xx no sentido de uma crescente convergência. Muitas das técnicas de propaganda política são hoje semelhantes às da publicidade, vende-se uma ideia ou um projeto político-social como se vende um produto ou um serviço. Ambos os discursos pretendem ser sedutores e convencer ou persuadir pela imagem visual ou acústica, de modo a penetrar consciente ou inconscientemente nos membros dos auditórios respetivos. No caso da publicidade, o auditório é específico, mas tendencialmente universal, na propaganda política é particular.        
    Ambos os discursos são manipuladores na medida em que fazem promessas veladas e jogam com os sentimentos e emoções do público no sentido de controlar comportamentos, seja a aquisição de bens ou serviços, ou a escolha de um projeto social ou de uma ideologia. O discurso publicitário é sempre composto por mensagens curtas associadas a imagem ou som, com pouca informação objetiva, de modo a captar a atenção facilmente. Já o discurso político pode ter mensagens mais extensas, dado que um candidato a uma eleição ou  um representante de uma ideologia, por vezes, discursam para auditórios particulares ou para auditórios mais alargados através dos mass media como a TV, durante um tempo muito mais extenso do que qualquer spot publicitário.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Diversidade individual e cultural


A diversidade individual deriva fundamentalmente da constituição genética, do ambiente em que se vive e da cultura em que se está imerso. A diversidade cultural resulta principalmente de fatores de natureza geográfica, ambiental, históricos e também do modo como as culturas se relacionam umas com as outras. As diversidades individuais e culturais dizem respeito às diferenças entre indivíduos e culturas. Essas diferenças são positivas na medida em que nos conduzem ao questionamento e à dúvida sobre os nossos pontos de referência. Esta dúvida resulta do contacto com indivíduos diferentes e muitas vezes de culturas diversas. Muitos dos nossos problemas, como os preconceitos, por exemplo, só poderão ser resolvidos se tivermos vivências e interações com modos de vida, pensamento e ação diferentes dos nossos. A diferença e a nossa disposição para a observar e escutar, leva-nos à aprendizagem e ao enriquecimento, o que é essencial para nos transformarmos e mudar positivamente os contextos em que vivemos.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Padrão Cultural Português




O padrão cultural português define-se, em primeiro lugar, como pensamento português, aquela forma de imaginar, dizer ou escrever, comum a todos os portugueses: o exercício da língua portuguesa. Dela faz parte a literatura identitária no seu expoente mais significativo, tal como Camões e Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e Camilo Castelo Branco, José Saramago e António Lobo Antunes, ilustres e esclarecidos representantes da alma portuguesa, António Aleixo, poeta popular, bem como todo o espólio de ditados populares que conhecemos e a linguagem oral espontânea na vivência do dia-a-dia, influenciada pelos símbolos da cultura portuguesa: a bandeira e o hino nacionais, o galo de Barcelos, a torre de Belém, os símbolos relativos ao desporto, principalmente o futebol, a religião dominante, católica, a música, nomeadamente o fado cantando a saudade, a gastronomia mediterrânica e os hábitos alimentares presentes no quotidiano e nas feiras e romarias.