terça-feira, 12 de abril de 2016

palavrear



as palavras nascem das cordas vocais
da cavidade bocal, aos bocados.
as palavras vão-se comendo umas às outras,
dão as mãos, enleiam-se como as caudas dos gatos.
a palavra palavra e todas as outras nasceram
e mesmo ontem, se eclodiram de manhã, umas
ao raiar do sol, outras já eram ao crepúsculo.
avós, mães, filhas e netas de si próprias,
vão-se descobrindo ao mesmo tempo
que se vão encobrindo para não morrerem.
as palavras são felizes quando se realizam,
zangam-se, azedas apartam-se  até ao próximo encontro.
avizinham-se para sobreviverem e pelejam ideias
muito difíceis de entender, entranham-se estranhamente
projetam fachos  numinosos, esclarecem-se
umas às outras como a língua do gato sobre o pelo macio
do gato mais próximo, sem proibições dizem coisas
espantosas como é proibido proibir,
interditam-se porque se entredizem, espalham-se
líquidos cristais sob a ténue luz ao cair da noite.
caem sem estrondo na terra quente e húmida,
aconchegam-se no longo inverno frio e cavernoso.
inusitadamente ressuscitam, criam hordas,
radicam-se, edificam casas onde vão morar,
de onde sairão quando um pastor as cativar,
deambulam nos verdes campos
onde lhes dará música da sua flauta mágica, 
posto isto convertem-se em poesia,
mostram-nos as profundezas e as altas montanhas 
entregam alegria aos corações 
cujas mãos desenharão crianças
rubras papoilas, mar salgado,  infinito amor.