quinta-feira, 31 de março de 2016

onomatopeia


Tal como as pedras, produzimos estalidos e sonoridades várias quando submetidos ao calor ou ao frio extremos. Tal como as pedras somos feitos de átomos: eletrões, protões, neutrões, quarks e vazio. Tal como as pedras viemos do pó e ao pó regressaremos. As pedras falam e choram quando a poesia entra na rua por elas calcetada. As pedras rolantes perdem o musgo e transformam-se em máquinas produtoras de pó macio e duro ruído. Aparecem os poetas: fazedores de onomatopeias, cinzeladores da terra, ouvintes apurados dos rios e dos lagos, das árvores e dos pássaros, das borboletas, dos leões e dos inventores do mundo transcendental. As pedras não falam mas é como se falassem, os rios e os lagos invadem-nos de amor líquido, as árvores dão-nos a ideia de raiz, os pássaros, a ousadia de voar, as borboletas, a consciência da brevidade do ciclo vital, os leões, a mania da justiça, do poder e da sabedoria. Os humanos falam mas é como se não falassem porque as palavras para salvar o mundo já foram todas inventadas. Os poetas são as crianças que balbuciam o despertar da fala. Sua tarefa de ourives, de tanta minúcia e atenção, manifesta-se silenciosa e quase não se dá por ela. É no silêncio que são regadas as sementes das palavras que o poeta cultiva. É no silêncio que a terra dá à luz a manifestação de si mesma. O poeta é apenas o lugar onde se dá a onomatopeia entregue ao mundo pelo cordão umbilical que o liga à terra-mãe. A poesia é o trabalho do poeta, escuta atento a fala do mundo e depois, de angustiada pena, grava, com a paciência de Job e o encanto da criança perante o doce, a onomatopeia, tal como a define o dicionário:  processo de formação da palavra cujo som imita o som daquilo que significa.

terça-feira, 22 de março de 2016

para sempre

imagem

A VIDA E A MORTE (1916) Gustav Klimt

um dia um de nós sentirá o vazio
de nunca mais falar com o outro,
seremos nada em simultâneo
talvez a  triste alegria seja sentida 
pelo fim do sofrimento de quem foi primeiro,
a certeza final da cristalina verdade
depois da realização de todas as ficções.
as nossas mortais células apodrecerão.
o tempo, tão breve quando conversamos, 
permanece misterioso. 
caminhamos lado a lado, falando, rindo,
jogando palavras um ao outro, 
como crianças passando a bola, 
existimos, ultrapassamos o nada que nos foge.  
seja o que for o futuro, agora apenas imaginado, 
tão bom é conhecer-te,  
quando caminho em qualquer lugar para parte nenhuma 
não consigo deixar de indagar se não estarás por ali, 
todos os sítios do mundo são bons para te encontrar, 
o teu corpo persegue-me ou sou eu que o persigo, 
não sei, não posso querer saber, 
não sei querer, tudo o que quero ou não quero acontece, 
e lá, linda como sempre, 
no cenário que descubro por acaso, 
sorris, com um sorriso de olhos doces, 
suave teu rosto quente e tuas mãos 
folheando cartas de amor espinhoso 
como as rosas da roseira do meu pedaço de planeta.  
no meio da literatura que me distrai,
pretexto do marulhar que me lança na vida, 
há horas em que não te perceciono 
e apenas te encontro na memória, 
mesmo assim  tudo faz sentido 
nesses flamejantes momentos
onde se encontra o sentido 
do que parece não ter sentido nenhum,
árvores despidas, urzes do campo, 
acácias floridas e calor das fragas, 
dando alento  aos nossos passos 
em direção às montanhas 
fustigadas pelo vento, para sempre.

domingo, 6 de março de 2016

A importância da metafísica para Descartes

A Árvore da Vida
                Gustav Klimt - 1909



Na obra
Princípios da Filosofia, Descartes utiliza a metáfora da árvore para elucidar a dimensão complexa da filosofia. Ele mostra-nos que não há filosofia sem metafísica. Esta é a raiz da Filosofia, por isso, é por ela que se deve começar a tarefa de encontrar os princípios fundamentais do conhecimento humano. Descartes está empenhado em construir o edifício do conhecimento em bases sólidas e é necessário compreender muito bem os alicerces ou as raízes desse conhecimento. A metafísica busca o conhecimento da essência das coisas, está para além da física, trata do domínio daquilo que não é dado aos sentidos, o seu conteúdo não é visível, tal como não são visíveis as raízes da árvore. Contudo, sem as raízes, fundamento da árvore, nada existiria de sólido. É necessário, para Descartes, encontrar o porquê dos princípios do conhecimento. Por isso ele procede a uma investigação de carácter metafísico através das regras do método (propostas na obra O Discurso do Método: evidência, análise, síntese e enumeração), inspirado na matemática, já que a sua origem é exclusivamente racional e a priori. Sem metafísica não pode haver utilidade na filosofia cujo pináculo é a moral, último grau da sabedoria que pressupõe o conhecimento de todas as outras ciências. Estas ideias apresentam um alcance notável e vão ao encontro do que Platão advogara há muito, o maior dos males é a ignorância, para praticar o bem, isto é, para exercer a moralidade, é necessário conhecimento e conhecimento do fundamento. É, em suma, impreterível ser radical, ir às raízes, tomá-las, apreendê-las, sem esse desiderato não há medicina, mecânica ou moral e portanto não há segurança nem confiança, condições imprescindíveis para o ser humano.