terça-feira, 3 de abril de 2018

amor é:


chocolate de forma desconhecida
que vem dentro de uma caixa bonita
aveludado como a fragrância dos teus dedos
amarelo vivo seara de vento
azul pássaro na crista do dia
verde pérola ondas do mar
vermelho romã, vermelho paixão, vermelho sol posto
caminhada esculpida em baixo relevo
na areia enlaçada por espuma branca
arrepio  no final da tarde à hora das gaivotas
sublime visão do horizonte incomensurável
no brilhozinho dos teus olhos quando a noite amanhece

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Subitamente

Súbito gafanhoto na cadeira do quintal
Sagração da primavera de Stravinsky
Aturdida ratazana à procura do esgoto
Poema "dá-me a tua mão" de Clarice Lispector
O gafanhoto levou-me à primeira guerra mundial
Ao tempo dos dinossauros e à oitava praga bíblica
A sagração da primavera treme-me na carne
Assusta-me ao mundo e voo por outra primavera
A de Vivaldi que era apenas a continuação dum ciclo natural
A ratazana à procura do seu mundo transporta-me à cozinha 
De Remy (do ratatouille) que tem o azar de ser um rato, mas um rato distinto
Só a última ideia no foco da consciência me permite salvar
A grande Clarice  Lispector que nos oferece a matéria primordial:
Sentir a vida intensamente e a respiração do mundo que é o silêncio.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

perfeita religião

     Nada posso fazer ontem ou amanhã, só agora. O presente é o tempo real. O passado e o futuro são tempos da alma como disse o filósofo Agostinho. A alma nada parece, é uma expressão do corpo, espírito ou pensamento que se apaga quando o corpo morre. Predispõe para o amor. Mas não se ama o que não se conhece e para conhecer há que viajar. Viver a vida intensamente. Percorrendo caminhos várias vezes, tantas quantas as possíveis e nem sempre no mesmo sentido, à segunda passagem já se é outro e percebe-se tudo ao contrário e assim compreende-se melhor quem vem em sentido inverso. Há que visitar os lugares onde já se esteve, reler os velhos livros, rever os velhos filmes, escutar as velhas músicas, visitar os velhos amigos. 
     A mesma estrada tanto sobe como desce. Pelo mesmo caminho tanto podemos subir aos céus como descer aos infernos. Cada coisa é seu contrário, cada moinho é um gigante, cada gigante é um moinho, por isso é essencial viajar ora de Rocinante ora de burro sem nome como Sancho Pança fiel a D. Quixote ou como Jesus a fugir de Herodes, fiel a si próprio. É no significado da insignificância vivida que se encontra a ligação religiosa com o mundo. Religião sem ídolos ou heróis e sem deuses pela qual nos ligamos a tudo plano ou curvo, alto ou baixo, próximo ou distante. Religião (do latim religare ) aos outros que falam uma linguagem compreensível porque há raízes que se tocam. Religião (ligação) que não nega as religiões dos outros, antes as respeita, apresentam similitudes: fundam-se no mistério da vida e do mundo, no sentimento da ignorância e da infinitude do universo.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

era uma vez

era um vez um homem
tão homem tão homem
que se gabava de picar cebola
tendo o cuidado primeiro
de colocar bem ajustadinhos
os óculos de mergulhador

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

o poder sobre as coisas

Olivier Ferrer, no texto "O tempo, a Perceção, o Espaço e a Memória" afirma que "O poder sobre as coisas é a reatualização de um saber adquirido de tal forma que a memória funcione como uma fonte de ação sobre o mundo". De alguma forma o poder que alguém exerce sobre alguma coisa, advém da consideração de que tal realidade sobre a qual se exerce esse poder é uma coisa, não tem vontade, autonomia, liberdade. Por isso, qualquer coisa sobre a qual se age, está disponível para ser instrumento, para ser manipulada, alterada e mesmo destruída. E nisso não há necessariamente nenhuma consideração moral. A realidade legitimamente coisificada ou coisa está aí disponível para o homem. "Poder" significa capacidade para dominar, alterar, mudar, esculpir, redesenhar, reutilizar, manipular, etc.. Tal capacidade só se verifica mediante a competência exercida na prática. Para tanto é necessária a memória, uma espécie de deusa imperfeita que constitui a nossa identidade e que se revela como o motor de arranque para os nossos movimentos pelos quais agimos sobre o mundo e com isso  o transformamos e nos alteramos a nós próprios. A "reatualização" do que se sabe é a manifestação da consciência, da lucidez que permite algumas crenças sem as quais não haveria probabilidade de movimento intencional ou de ação sobre o mundo.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

a superstição científica

As ciências são portadoras de visões parciais da realidade, são plurais, cada uma delas situa-se numa perspetiva a partir da qual contribui para o conhecimento do mundo. As ciências têm informação da realidade, contudo, nenhuma delas usufrui de todos os pontos de vista ou de todos os conhecimentos possíveis acerca do mundo e da vida. As ciências são o exercício, a atividade dos cientistas, seres vivos sempre em mudança, na busca de soluções para problemas práticos ou teóricos. Tomar o conhecimento científico pelo conhecimento do ser na totalidade, significa cair num erro de tomar a parte pelo todo, o que é logicamente insustentável. Cair-se-ia no abismo da insensatez, endeusando a própria ciência e negando a natureza dos seres humanos, e entrar-se-ia no reino da superstição cuja principal característica é a  crença irracional. O conjunto de todas as ciências aborda todas as perspetivas possíveis para descrever, explicar, prever e transformar o mundo através das técnicas por si criadas, mas não esgota de forma nenhuma tudo o que há para saber, porque os pontos de vista podem ser infinitos. Por isso, como a realidade é inesgotável, acreditar que toda ela pode ser conhecida integralmente não passa de superstição científica, uma forma de superstição entre outras.

O mistério e a procura

As perguntas ou interrogações só são possíveis quando alguma coisa nos espanta ou surpreende. Quando o que vemos, ouvimos ou sentimos não está de acordo ou não se conforma com a nossa visão do mundo, temos tendência a perguntar. Também nos interrogamos quando, à primeira vista, não compreendemos a realidade que somos ou a que se apresenta no nosso horizonte. Temos que ver o mistério para procurarmos seja o que for, já que o mistério é a realidade secreta e escondida. Para vermos o mistério necessitamos da fé de que algo não se mostra, só a partir daqui se pode procurar, supondo que existe o que não é dado. A crença de que existe o que não é dado imediatamente, consuma-se a partir do momento em que nos deixamos surpreender ou nos espantamos. Esse espanto não nos leva à fuga como os pássaros fogem dos espantalhos, mas antes ao movimento de investigação suportado pela nossa insaciável necessidade de matar a sede do conhecimento.