terça-feira, 5 de dezembro de 2017

era uma vez

era um vez um homem
tão homem tão homem
que se gabava de picar cebola
tendo o cuidado primeiro
de colocar bem ajustadinhos
os óculos de mergulhador

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

o poder sobre as coisas

Olivier Ferrer, no texto "O tempo, a Perceção, o Espaço e a Memória" afirma que "O poder sobre as coisas é a reatualização de um saber adquirido de tal forma que a memória funcione como uma fonte de ação sobre o mundo". De alguma forma o poder que alguém exerce sobre alguma coisa, advém da consideração de que tal realidade sobre a qual se exerce esse poder é uma coisa, não tem vontade, autonomia, liberdade. Por isso, qualquer coisa sobre a qual se age, está disponível para ser instrumento, para ser manipulada, alterada e mesmo destruída. E nisso não há necessariamente nenhuma consideração moral. A realidade legitimamente coisificada ou coisa está aí disponível para o homem. "Poder" significa capacidade para dominar, alterar, mudar, esculpir, redesenhar, reutilizar, manipular, etc.. Tal capacidade só se verifica mediante a competência exercida na prática. Para tanto é necessária a memória, uma espécie de deusa imperfeita que constitui a nossa identidade e que se revela como o motor de arranque para os nossos movimentos pelos quais agimos sobre o mundo e com isso  o transformamos e nos alteramos a nós próprios. A "reatualização" do que se sabe é a manifestação da consciência, da lucidez que permite algumas crenças sem as quais não haveria probabilidade de movimento intencional ou de ação sobre o mundo.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

a superstição científica

As ciências são portadoras de visões parciais da realidade, são plurais, cada uma delas situa-se numa perspetiva a partir da qual contribui para o conhecimento do mundo. As ciências têm informação da realidade, contudo, nenhuma delas usufrui de todos os pontos de vista ou de todos os conhecimentos possíveis acerca do mundo e da vida. As ciências são o exercício, a atividade dos cientistas, seres vivos sempre em mudança, na busca de soluções para problemas práticos ou teóricos. Tomar o conhecimento científico pelo conhecimento do ser na totalidade, significa cair num erro de tomar a parte pelo todo, o que é logicamente insustentável. Cair-se-ia no abismo da insensatez, endeusando a própria ciência e negando a natureza dos seres humanos, e entrar-se-ia no reino da superstição cuja principal característica é a  crença irracional. O conjunto de todas as ciências aborda todas as perspetivas possíveis para descrever, explicar, prever e transformar o mundo através das técnicas por si criadas, mas não esgota de forma nenhuma tudo o que há para saber, porque os pontos de vista podem ser infinitos. Por isso, como a realidade é inesgotável, acreditar que toda ela pode ser conhecida integralmente não passa de superstição científica, uma forma de superstição entre outras.

O mistério e a procura

As perguntas ou interrogações só são possíveis quando alguma coisa nos espanta ou surpreende. Quando o que vemos, ouvimos ou sentimos não está de acordo ou não se conforma com a nossa visão do mundo, temos tendência a perguntar. Também nos interrogamos quando, à primeira vista, não compreendemos a realidade que somos ou a que se apresenta no nosso horizonte. Temos que ver o mistério para procurarmos seja o que for, já que o mistério é a realidade secreta e escondida. Para vermos o mistério necessitamos da fé de que algo não se mostra, só a partir daqui se pode procurar, supondo que existe o que não é dado. A crença de que existe o que não é dado imediatamente, consuma-se a partir do momento em que nos deixamos surpreender ou nos espantamos. Esse espanto não nos leva à fuga como os pássaros fogem dos espantalhos, mas antes ao movimento de investigação suportado pela nossa insaciável necessidade de matar a sede do conhecimento.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

filosofia e publicidade - Benetton

Resultado de imagem para benetton philosophyHá uma marca que aprecio, não pelo que vende, nomeadamente vestuário, mas pelas formas e características das suas campanhas publicitárias. São críticas, corrosivas, provocantes, fazem-nos pensar. Levam-nos a saltar dos carris do nosso pensamento e indicam-nos horizontes criativos nos quais provavelmente nunca havíamos pensado. Tal como a filosofia.

sábado, 23 de setembro de 2017

As ideias verdes incolores dormem furiosamente

 Há um problema sempre atual que nos leva à questão do sentido ou do significado. O que é uma palavra e que relação é que tem com a coisa? As palavras podem ser ditas e por isso escritas, ao serem proferidas não são mais do que sons articulados. Qual é então a relação entre som e significado?

      Ferdinand de Saussure (1857-1913), no seu célebre curso de linguística geral revelara que o signo linguístico apresenta duas faces como se fosse uma moeda, o significante ou imagem acústica e o significado ou conceito. Nesta relação não há margem para qualquer determinismo, o signo enquanto significante é arbitrário. Não há determinação universal para a palavra na sua relação com a coisa. Por isso o mesmo objeto é designado por sons diferentes consoante a língua usada. Car, voiture, carro, coche, designam um e apenas um conceito, o de carro ou automóvel. Não há portanto nenhuma ligação natural entre os sons e o objeto que designam ou indicam.
      Contudo as palavras surgem organizadas quando são proferidas, essa ordem é sintática e pode variar de língua para língua. A forma ou sintaxe e o conteúdo ou semântica geram infinitas possibilidades de combinação de palavras o que permite infinitas frases. Mas não se pode analisar um discurso, sucessão de frases, prescindindo de nenhum dos dois campos, sintático e semântico. 
      Se o fizermos corremos o risco de encontrar sentido onde ele não existe o que é absurdo e paradoxal. Atente-se no célebre exemplo de Noam Chomsky dos anos 50 do século xx: "Colorless green ideas sleep furiously", traduzindo, "As ideias verdes incolores dormem furiosamente". Do ponto de vista sintático poderemos dizer que se trata de uma frase bem formada, o que já não acontece se tomarmos a frase na perspetiva semântica, isto é, do seu conteúdo material.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

noite azul

Vi claramente numa noite azul
Um espetáculo digno de nota
Numa parede branca como a cal
Uma senhora aranha toda ciosa
Talvez esfomeada tecendo a teia

Esvoaçava incauta a borboleta notívaga
Alegremente ao som da aragem sob a luz
Da lua ofuscando o titilar dos pirilampos
Voltejava num vórtice hilariante sem fim
Como o parafuso de Arquimedes, o físico

Escondeu-se o aracnídeo no vão da alvenaria
Enquanto a mariposa batia as asas ousando
Desafiar o destino perante os olhos ocultos
Voava e revoava embriagada na sua beleza
Como se fosse a rainha do universo infinito

Nenhuma das partes desistiu do seu fado
Ao afastar-se o lepidóptero avança a aranha
Aperfeiçoando com destreza em rápidos movimentos
As malhas da sua rede mais fina e mais forte
Com o terrífico olhar esfíngico de caçadora

Num voo mais ousado e temerário
À procura da luz, fica presa a mariposa
Com as asas coladas na teia quase invisível
Foi transformada num rolinho apetitoso
Enleada como uma múmia egípcia

E assim termina a história da borboleta
Que era livre e dançava alegremente
À procura da luz numa bela noite azul
E que não conseguiu fugir ao destino:
Repasto para uma aranha sagaz.