segunda-feira, 25 de setembro de 2017

filosofia e publicidade - Benetton

Resultado de imagem para benetton philosophyHá uma marca que aprecio, não pelo que vende, nomeadamente vestuário, mas pelas formas e características das suas campanhas publicitárias. São críticas, corrosivas, provocantes, fazem-nos pensar. Levam-nos a saltar dos carris do nosso pensamento e indicam-nos horizontes criativos nos quais provavelmente nunca havíamos pensado. Tal como a filosofia.

sábado, 23 de setembro de 2017

As ideias verdes incolores dormem furiosamente

 Há um problema sempre atual que nos leva à questão do sentido ou do significado. O que é uma palavra e que relação é que tem com a coisa? As palavras podem ser ditas e por isso escritas, ao serem proferidas não são mais do que sons articulados. Qual é então a relação entre som e significado?

      Ferdinand de Saussure (1857-1913), no seu célebre curso de linguística geral revelara que o signo linguístico apresenta duas faces como se fosse uma moeda, o significante ou imagem acústica e o significado ou conceito. Nesta relação não há margem para qualquer determinismo, o signo enquanto significante é arbitrário. Não há determinação universal para a palavra na sua relação com a coisa. Por isso o mesmo objeto é designado por sons diferentes consoante a língua usada. Car, voiture, carro, coche, designam um e apenas um conceito, o de carro ou automóvel. Não há portanto nenhuma ligação natural entre os sons e o objeto que designam ou indicam.
      Contudo as palavras surgem organizadas quando são proferidas, essa ordem é sintática e pode variar de língua para língua. A forma ou sintaxe e o conteúdo ou semântica geram infinitas possibilidades de combinação de palavras o que permite infinitas frases. Mas não se pode analisar um discurso, sucessão de frases, prescindindo de nenhum dos dois campos, sintático e semântico. 
      Se o fizermos corremos o risco de encontrar sentido onde ele não existe o que é absurdo e paradoxal. Atente-se no célebre exemplo de Noam Chomsky dos anos 50 do século xx: "Colorless green ideas sleep furiously", traduzindo, "As ideias verdes incolores dormem furiosamente". Do ponto de vista sintático poderemos dizer que se trata de uma frase bem formada, o que já não acontece se tomarmos a frase na perspetiva semântica, isto é, do seu conteúdo material.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

noite azul

Vi claramente numa noite azul
Um espetáculo digno de nota
Numa parede branca como a cal
Uma senhora aranha toda ciosa
Talvez esfomeada tecendo a teia

Esvoaçava incauta a borboleta notívaga
Alegremente ao som da aragem sob a luz
Da lua ofuscando o titilar dos pirilampos
Voltejava num vórtice hilariante sem fim
Como o parafuso de Arquimedes, o físico

Escondeu-se o aracnídeo no vão da alvenaria
Enquanto a mariposa batia as asas ousando
Desafiar o destino perante os olhos ocultos
Voava e revoava embriagada na sua beleza
Como se fosse a rainha do universo infinito

Nenhuma das partes desistiu do seu fado
Ao afastar-se o lepidóptero avança a aranha
Aperfeiçoando com destreza em rápidos movimentos
As malhas da sua rede mais fina e mais forte
Com o terrífico olhar esfíngico de caçadora

Num voo mais ousado e temerário
À procura da luz, fica presa a mariposa
Com as asas coladas na teia quase invisível
Foi transformada num rolinho apetitoso
Enleada como uma múmia egípcia

E assim termina a história da borboleta
Que era livre e dançava alegremente
À procura da luz numa bela noite azul
E que não conseguiu fugir ao destino:
Repasto para uma aranha sagaz.





domingo, 25 de junho de 2017

solidão

no centro do deserto
na noite mais funda do universo
só pérolas de estrelas distantes
átomos de gelo e ar veloz
me tocavam sob  luz transcendente 
nas ondas das dunas de estranha vida
deliberei atravessá-lo contigo
junto aos teus passos caminhei
aprendi a não ter medo da morte
a enfrentar a fúria dos fanáticos 
dos fantasmas,  das fomes, misérias e hipocrisias
teus olhos me vestiram na planura dos medos
tuas mãos me ofereceram o vinho puro
procedente de uvas cor de sangue 
numa taça de cristal 
sibilando amor em pleno vento

quarta-feira, 21 de junho de 2017

If Minds Had Toes - (O dia em que Sócrates vestiu jeans)

Wook.pt - O Dia em que Sócrates Vestiu Jeans
Sugestão de leitura


Título: O dia em que Sócrates vestiu jeans

Autora: Lucy Eyre

Data da 1.ª edição: Abril de 2007

Sobre a autora:

Lucy Eyre cresceu em Londres e estudou Filosofia na Universidade de Oxford. Conviveu desde muito cedo com escritores e argumentistas por ser filha do realizador cinematográfico Richard Eyre. Uma doença súbita conduziu-a a uma forma diferente de ver a vida. Dedicou-se, assim, à escrita.




Sobre o livro:


            O título da edição inglesa, “If Minds Had Toes”, (na edição brasileira “O Pensamento Voa - Descobrindo o prazer da filosofia”) é bem diferente do da edição portuguesa da “Casa das letras”. Talvez os jeans sejam símbolo de bem-estar, de prazer de viver e de liberdade. Sócrates, celebérrimo filósofo que deu a vida por um ideal de justiça, ao vestir jeans estará a comprometer-se numa forte e actual ligação à juventude, para confirmar o seu verdadeiro carácter. Lembremo-nos de que uma das acusações que o levaram à condenação à morte foi a de corromper a juventude, o que confirma a sua ocupação pedagógica.
Os temas fundamentais da filosofia presentes no Mundo das ideias (uma alusão à filosofia do célebre filósofo grego, Platão, e ao seu mestre que nada escreveu, Sócrates), a moral, o livre-arbítrio e a felicidade, são alvo de uma sucessão de diálogos entre Bem Warner, um adolescente típico, Lila, uma mulher jovem e atraente, e os grandes e determinantes pensadores-filósofos de sempre. Ela leva-o, por meio de um bizarro convite, para um lugar inteiramente desconhecido, o “Mundo das Ideias”, cujo presidente é Sócrates, o mestre de Platão. Curiosamente, Sócrates fez uma aposta com o seu rival e grande filósofo, Wittgenstein, filósofo austríaco considerado um dos maiores do século XX (contribuiu com diversas inovações nos campos da lógica, filosofia da linguagem e epistemologia.). Sócrates tem todo o interesse em ganhar a aposta e, para tal, terá de convencer Ben Warner de que a filosofia pode melhorar a sua vida. Então o nosso jovem acaba por entrar num mundo paralelo e por encetar uma viagem mental às grandes questões da filosofia que são, entre outras: O que é o mundo? O que é a felicidade? A morte é ou não o que de pior nos pode acontecer? Teremos vontade própria ou obedecemos a um destino preconcebido por um ser que tudo criou e em tudo manda? Em que é que nós podemos acreditar? Qual a diferença entre verdade e mentira? Porquê os dilemas morais?
Por exemplo, a propósito do que é errado ou não e das regras morais:
“- Se é possível dizer que não faz mal infringir uma regra (…) se com isso evitar um desfecho verdadeiramente mau, então qual é a vantagem de ter regras? Ou as regras são invioláveis e é por isso que as temos, ou podem, por vezes, ser infringidas, caso em que deixam de ser regras.
- Num dilema moral como deve ser (…) seja o que for que fizermos envolve sempre fazer qualquer coisa errada. É óbvio que não existe uma resposta fácil. Se houvesse não seria um verdadeiro dilema.” – (pág. 229)
Realmente o nosso jovem escapa a uma vida entediante e desperta para a sua importância através da aprendizagem dos conceitos básicos da filosofia. Para além disso conclui, ou faz-nos concluir, que a filosofia é inevitável. Toda a gente necessita de uma filosofia de vida. Toda a gente precisa de saber em quê e porquê acreditar nisto ou naquilo. Toda a gente tem um caminho a trilhar e sem filosofia não sabe nem o porquê nem o para quê desse caminho que é sempre resposta a perguntas existenciais.

      Este livro aconselha-se a toda a gente, nomeadamente às pessoas inteligentes, divertidas e cativantes, mas também àqueles que, não o sendo, apreciam a originalidade, a diversão e a inteligência. No fundo, este livro mostra-nos que qualquer pessoa pode ser ensinada a pensar. Para tanto basta lê-lo e deixar-se encantar com a fluidez da escrita de  Lucy Eyre.

Boa Leitura.

terça-feira, 20 de junho de 2017

De que se ocupa a filosofia?

A filosofia ocupa-se de diversas questões, classificadas segundo domínios específicos – o pensamento, o ser, o conhecimento, a ciência, a moral, a linguagem, a beleza, a existência, Deus, etc. A estes domínios correspondem disciplinas filosóficas particulares. Todas estas interrogações e inquietações nos revelam que as preocupações da filosofia não excluem nenhuma das dimensões em que se move a existência humana. Kant resumiu em três interrogações o âmbito da filosofia: Que posso saber? Que devo fazer? Que me é permitido esperar? Todas estas questões podem ser sintetizadas numa só: O que é o Homem? A resposta à última questão pressupõe a resposta às anteriores. O Homem é o grande mistério do próprio Homem, já que todos os mistérios decorrem, afinal, das suas inquietações. Importa, por conseguinte, não criar fronteiras estanques entre os diversos problemas filosóficos. Eles encontram-se inter-relacionados, devendo ser abordados de forma unitária e integradora, já que dizem sempre respeito àquele que os formula: o ser humano.

domingo, 28 de maio de 2017

O que torna a ciência tão especial e confiável?

A ciência é tão especial porque é o conjunto das áreas do conhecimento  que se acredita ser mais próximo da verdade. É ao mesmo tempo a atividade que responde com lógica às perguntas sobre o modo como o mundo funciona. Responde também à curiosidade inata dos seres humanos e produz tecnologias com um alto grau de eficácia na resolução de problemas humanos relacionados com a saúde, com a organização das sociedades, com a aprendizagem, com os modos de produção, com as comunicações, com o planeta terra, com os animais, com os seres humanos em particular, com o universo. A ciência ajuda os seres humanos a viverem mais e a compreenderem-se melhor, de tal forma que, em determinadas áreas o seu grau de previsibilidade é elevado. A ciência divide-se em áreas, ciências sociais e humanas, ciências físico-naturais e lógico-matemáticas. As ciências são tão especiais também porque são interdependentes. Os cientistas não querem deixar nada de fora do seu objeto de estudo. Para cada área científica há um objeto de estudo diferente, a realidade pode ser vista, estudada, analisada de muitas perspetivas, pode ser decomposta em partes muitíssimo pequenas. Por isso, para cada área científica há um método próprio baseado num método geral, que de certa forma torna a ciência produtiva, rigorosa, preditiva. A ciência estuda objetos particulares e por isso ela pretende ser objetiva e para atingir essa objetividade, o que lhe garante uma maior proximidade  à verdade, faz-se, na maior parte dos casos, com investigação em equipa, o que lhe confere uma característica impreterível: a intersubjectividade. Os métodos das ciências em determinadas áreas levam à formulação de proposições que expressam leis ou regularidades que são aceites universalmente. Este caráter universal das leis científicas dá-lhes uma enorme força e por isso também contribui para que haja por elas um enorme respeito. Ao mesmo tempo os cientistas têm a sensação de que o seu objeto de estudo é inesgotável, por um lado porque muda o objeto, por outro porque muda o cientista e todo o arsenal de instrumentos que lhe permite ver mais fundo, com mais rigor, eficácia e minúcia. Este caráter da ciência que se sabe tarefa sempre inacabada confere-lhe um grau de humildade que a torna meritória, confiável e respeitável.