quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021
cinzas
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
dia de inverno
sábado, 30 de janeiro de 2021
Campo Maior
Campo
maior que o pensamento,
do tamanho dos sonhos,
sagrada terra onde mora a tua palavra.
Campo inteiro
de dias transparentes,
como água natural
de nascente pura e fresca.
Nele se levantam vozes
por mor das penas dos seus filhos
e de quem percorreu seus trabalhos e seus trilhos.
Já abalaram muitos
para a cidade grande,
dia a dia, sol a sol, noite a noite,
afugentando correntes e grilhetas
com o suor do rosto
que afoga as mágoas
da pele crestada
pelo vento suão,
pelo calor, pela dor.
Eis o verde vivo,
que me tem cativo,
de amarela flor
girando até o sol se pôr.
Eis ainda a bandeira rubra
que mora na tua voz
que é a voz de todos nós.
Ufano grito do fundo do peito,
retumbando liberdade
como em Abril
de cravos mil.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
Paisagem e Cultura
A palavra "cultura" refere, tal como afirma Blackburn, o modo de vida de um povo, com as suas atitudes, valores, crenças, artes, ciências, modos de perceção e hábitos de pensamento e de ação. É o conjunto dos modos de pensamento, comportamentos e produções materiais e espirituais transmitidos e aprendidos no decurso do processo de socialização. A cultura fornece os meios de adaptação do ser humano ao seu ambiente e desempenha um papel fundamental na unidade e diversidade da espécie humana. Onde há seres humanos há cultura, ela é o conjunto de todos os traços e produções específicos dos seres humanos de todas as latitudes do planeta Terra. É universal, na medida em que há cultura em qualquer espaço ou paisagem onde se encontrem membros da espécie humana, mas é também diversa, porque há uma infinidade de possibilidades dos seres humanos se organizarem para viverem em sociedade. É a cultura que define a humanidade. Não haveria humanidade sem cultura. Por isso tal como os seres humanos são diversos, também são diversas as culturas e em cada uma delas se pode divisar um conjunto de características comuns a todos os indivíduos que nelas participam e que define aquilo a que chamamos “padrão cultural”, isto é, maneira própria e tipificada de pensar, sentir e agir, específica de uma determinada cultura. A cultura é adquirida após o nascimento e transmite-se de geração em geração por meio da linguagem num processo complexo de socialização primária e secundária.
Poderemos perspetivar a
cultura de diversas formas: do etnocentrismo ao relativismo. Não nos parece que
a primeira, o etnocentrismo, seja no século XXI uma visão correta, já que
aponta para a ideia de que o povo a que
se pertence, com as suas crenças, tradições e valores, é um modelo absoluto a
que tudo o mais deve submeter-se. Não devemos defender imposições absolutistas
nem sequer imposições de tipo nenhum, não faz parte do nosso léxico vivencial,
tanto intencional como prático, qualquer forma de totalitarismo. Por isso, devemos
entender a cultura numa perspetiva do relativismo, na medida em que reconhecemos
que não há critérios universais e independentes de bem e de mal, de belo e de
feio, mas não aceitamos um relativismo absoluto que tolere tudo. Devemos ser tolerantes e compreensivos porque
não podemos nem devemos condenar o que é diferente de nós só porque é
diferente. A virtude da tolerância tem de pressupor limites e intolerância face
aos intolerantes, torna necessária e impreterível a concretização prática dos
direitos humanos universais. A cultura, seja em que contexto ambiental for,
deve promover sempre o bem-estar humano em reciprocidade com o respeito pela
natureza. Mas a cultura emerge sempre num contexto, em parte determinado
pela paisagem herdada seja ela natural ou humanizada. Algumas questões que
creio importantes e que se ligam ao espírito desta reflexão são:
- Que relação existe entre
paisagem e cultura?
- Como poderemos agir para
alterar essa relação, no caso de ela estar a ser incorreta?
Recordo uma das primeiras aulas de geografia quando frequentei o oitavo ano do ensino geral unificado, em finais dos anos setenta do século XX, a qual se iniciou com a definição de Geografia: a ciência que descreve e explica as paisagens naturais e humanizadas. E logo vieram as perguntas dos alunos, como é que sabemos o que é natural e o que é humanizado?
No contexto europeu e português e mesmo mundial,
quase não há paisagens absolutamente naturais no sentido de que não tiveram
ainda qualquer intervenção ou influência humana. Os processos de
industrialização, de urbanização e de vida dos seres humanos estão submetidos,
há muito tempo, à globalização onde, com certeza, é provável o efeito
borboleta. Tudo está ligado a tudo, a poluição numa parte do mundo influencia,
por pouco que seja, todas as outras partes do mundo.
Podemos referir paisagem e cultura por um conceito de duas palavras: paisagem cultural. A UNESCO, através do Comité do Património Mundial colocou em destaque o conceito de paisagem cultural pelo seu reconhecimento enquanto categoria, mas a sua génese acontecera já no século XIX. A paisagem cultural é a paisagem criada pela cultura humana. De acordo com a visão determinista, a paisagem cultural é construída pelos seres humanos cujo comportamento obedece apenas a fatores de natureza ambiental. Sabemos que não é assim, por exemplo, Franz Boas (1858-1942), um dos pioneiros da antropologia moderna, desenvolveu a ideia de paisagem cultural com a introdução do conceito de relativismo cultural, partindo do pressuposto de que cada povo/cultura se expressa ou se pode expressar de forma diferente em ambientes semelhantes. Podemos defender a importância da especificidade de cada cultura e de cada lugar para compreendermos as paisagens culturais, em contraste com a ideia de evolucionismo linear e unidirecional do desenvolvimento da humanidade. Daí que os fatores culturais de natureza não material, sejam muito importantes, mas não únicos, na perceção da transformação das paisagens. Para além das diferentes visões e entendimentos do que é a paisagem cultural, percebe-se, cada vez mais, que a paisagem tem uma história que é impreterível reconhecer, tem os seus próprios ritmos e temporalidade. Por isso uma das áreas atuais de pesquisa é a “biografia da paisagem”.
O debate que importa fazer sobre as paisagens culturais é aquele que tem a ver com a preservação da identidade cultural e paisagística no contexto de mudanças que devem ser pensadas coletivamente no respeito pelos direitos humanos e pela preservação da biodiversidade com uma economia sustentável a longo prazo. Assistimos há alguns anos, por exemplo, em todo o Alentejo, a uma crise da paisagem que sofre devido ao êxodo rural e à perda demográfica, e desemboca numa perda progressiva do saber enraizado na cultura das comunidades que paulatinamente vão desaparecendo. Isto não é uma inevitabilidade, reconhecemos isso, e para tal aqui se faz algum caminho de reflexão que se impõe e que não pode esmorecer.
O estudo das paisagens culturais deverá ser feito no sentido de compreender a sua
história e cultura, de apreender a sua
identidade e consequentemente melhorar a sua perceção; a leitura e
interpretação das paisagens culturais são imprescindíveis para a sua correta
gestão e para uma boa intervenção, se
necessária, tanto no presente como no futuro; as decisões que decorrerem do
estudo, reflexão, análise e debate sobre as paisagens e a cultura deverão
garantir a sobrevivência condigna das comunidades locais dos pontos de vista
social, económico, cultural, ambiental e ecológico. Por conseguinte, nesta
senda, vislumbra-se a necessidade humana de identidade cultural intrinsecamente
ligada, não apenas a um sentimento de pertença a determinado grupo étnico,
cultural, religioso, mas também à sua ligação profunda à terra, à paisagem. Veja-se, por exemplo, o cante alentejano como Hino e
Alma do Baixo Alentejo, como é mostrado pelo mestre José Gato,
a partir do cancioneiro de Serpa:
Alentejo, Alentejo
Eu sou devedor à terra,
a terra me está devendo!
Eu sou devedor à terra,
a terra me está devendo!
A terra paga-me em vida, eu pago à terr'(em) morrendo!
https://www.youtube.com/watch?v=xxDz28Fhp-0
Devemos defender a preservação do
património cultural pela recolha e manutenção de memórias vivas e dinâmicas,
como o cante, por exemplo, porque pode potenciar formas interessantes e
profícuas de desenvolvimento social, cultural e económico como o turismo
cultural, na medida em que for compatível com a qualidade de vida dos locais e
de quem os visita. Mas é igualmente necessário defender e preservar o
património material edificado e classificado em todas as paisagens, sejam
urbanas ou rurais. É desolador ver, como aconteceu recentemente, nos arredores de Évora, uma anta do período neolítico
arrasada para plantação de um amendoal intensivo, património à mercê de interesses privados e do
desleixo das entidades públicas. Inaceitável é também a invasão do olival intensivo junto às populações, pondo
em causa a qualidade do ar que se respira, da água que se bebe, do silêncio que se necessita e do horizonte
visual tradicional tranquilo. Igualmente preocupante
e inaceitável é a alteração da paisagem do montado alentejano, agora atacado e
invadido por culturas intensivas, criando ilhas de sobreiros e azinheiras que, cercados, têm a morte anunciada, impossibilitando outras formas de
economia tradicional sustentável, como a criação do porco alentejano à base de
bolota.
Os exemplos aqui apontados mostram que há paisagens tradicionais, como o olival de sequeiro, e expressões culturais
positivas que lhes estão associadas, ambas em risco, e que é possível alterar este
estado de coisas. O olival tradicional, ao contrário do intensivo e super intensivo, preserva os
aquíferos, não polui os solos nem o ar, não agride esteticamente, é um
investimento de longo prazo, cria expetativas positivas intergeracionais, desenvolve-se num tempo lento
com um alto grau de previsibilidade, cria produtos de melhor qualidade, dá
confiança às populações locais, permite, não o imobilismo, mas uma evolução
paulatina que respeita os ecossistemas e as tradições populares pelas quais se
mantêm dinâmicas culturais e de
comunicação que potenciam outras formas de desenvolvimento como o turismo
cultural saudável, e um modo de viver mais feliz. Combater
o olival e outras culturas intensivas e superintensivas é contribuir
para uma vida melhor em Portugal e também para um planeta onde a vida
humana e de outras espécies a curto, médio e longo prazo, seja possível.
Significa colocar em simbiose, e não em oposição, as paisagens e as expressões
culturais, gerando equilíbrios, numa dialética que visa uma sociedade mais
igualitária, respeitando as diferenças, e por isso mais
desenvolvida humanamente, uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem
e do interesse exclusivo daqueles que apenas almejam o lucro máximo no menor
tempo possível.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
Religião
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Ano Novo
O ano novo está aí à porta e,
como sempre, não faltam profetas,
adivinhos, futuristas, especialistas
e outros coristas dos paraísos
e dos apocalipses, com máscara ou sem ela,
para nos apontarem o caminho da salvação!
Parece simples encontrar o portal
da felicidade, a janela para o horizonte
onde não há pecado nem sofrimento!
O ano que termina não se eclipsa,
gravado será na memória universal,
é tempo, não tem ânsias.
Os anseios são dos corpos
sôfregos pela realização dos sonhos,
que num ápice se desvanecem.
E nós, iludidos pelas memórias,
exclamamos, como que desadormecidos,
já lá vai tanto tempo!
Onde vive a criança que se perdeu no caminho?
Onde param as lágrimas das despedidas?
Onde mora a epopeia do amor?
Contaremos as doze passas,
ergueremos as taças de espumante.
Brindaremos de cara lavada e de alma fresca,
contaremos os bons segredos uns aos outros,
aguçaremos o nosso pensamento?
Por que não respeitar a palavra limpa e polida,
a dança da vida e a paixão do outro?
Talvez pudéssemos desviar
os maus augúrios e inventar
um Novo Ano a sério.