Páginas

terça-feira, 12 de abril de 2016

palavrear



As palavras nascem das cordas vocais,
da cavidade bocal, aos bocados.
As palavras vão-se seguindo umas às outras,
dão as mãos, enleiam-se como as caudas dos gatos.
A palavra palavra e todas as outras nasceram
e, mesmo ontem, se eclodiram de manhã, umas
ao raiar do sol, outras já eram ao crepúsculo.
Avós, mães, filhas e netas de si próprias,
vão-se descobrindo ao mesmo tempo
que se vão encobrindo para não definharem.
As palavras são felizes quando se realizam.
Azedas, zangam-se e apartam-se  até ao próximo encontro.
Avizinham-se para sobreviverem e pelejam ideias
muito difíceis de entender. 
Entranham-se na estranheza de si próprias.
Projetam fachos  numinosos, esclarecem-se
umas às outras, como a língua do gato sobre o pelo macio
do gato mais próximo.
Sem proibições dizem coisas
espantosas como, é proibido proibir,
interditam-se porque se entredizem, espalham-se
como cristais sob a ténue luz ao cair da noite.
Caem sem estrondo na terra quente e húmida,
aconchegam-se no longo inverno frio e cavernoso.
Abrigam-se do sol que queima e mostram as flores
e os frutos da primavera de maio.
Inusitadamente ressuscitam, criam hordas,
radicam-se, edificam casas onde vão morar,
de onde sairão quando um pastor as cativar.
Deambulam nos verdes campos
onde escutam a música da flauta mágica. 
Posto isto convertem-se em poesia,
mostram-nos as profundezas e as altas montanhas, 
entregam alegria aos corações 
cujas mãos desenharão crianças
rubras papoilas, mar salgado,  infinito amor.

quinta-feira, 31 de março de 2016

CAMINHAR


Ao caminharmos,
mesmo em silêncio,
podemos obter,
com algum tempo,
os sonhos lúcidos
e os propósitos
que requeremos
para a nossa vida.
No final de cada caminhada,
ao repousarmos na realidade,
como a borboleta na flor,
despertamos.
Se não nos movimentarmos
não sentiremos as grilhetas
que nos prendem,
não desentorpeceremos,
jamais nos libertaremos
dos sonos dogmáticos.





terça-feira, 22 de março de 2016

para sempre

imagem

A VIDA E A MORTE (1916) Gustav Klimt

um dia um de nós sentirá o vazio
de nunca mais falar com o outro,
seremos nada em simultâneo
talvez a  triste alegria seja sentida 
pelo fim do sofrimento de quem foi primeiro,
a certeza final da cristalina verdade
depois da realização de todas as ficções.
as nossas mortais células apodrecerão.
o tempo, tão breve quando conversamos, 
permanece misterioso. 
caminhamos lado a lado, falando, rindo,
jogando palavras um ao outro, 
como crianças passando a bola, 
existimos, ultrapassamos o nada que nos foge.  
seja o que for o futuro, agora apenas imaginado, 
tão bom é conhecer-te,  
quando caminho em qualquer lugar para parte nenhuma 
não consigo deixar de indagar se não estarás por ali, 
todos os sítios do mundo são bons para te encontrar, 
o teu corpo persegue-me ou sou eu que o persigo, 
não sei, não posso querer saber, 
não sei querer, tudo o que quero ou não quero acontece, 
e lá, linda como sempre, 
no cenário que descubro por acaso, 
sorris, com um sorriso de olhos doces, 
suave teu rosto quente e tuas mãos 
folheando cartas de amor espinhoso 
como as rosas da roseira do meu pedaço de planeta.  
no meio da literatura que me distrai,
pretexto do marulhar que me lança na vida, 
há horas em que não te perceciono 
e apenas te encontro na memória, 
mesmo assim  tudo faz sentido 
nesses flamejantes momentos
onde se encontra o sentido 
do que parece não ter sentido nenhum,
árvores despidas, urzes do campo, 
acácias floridas e calor das fragas, 
dando alento  aos nossos passos 
em direção às montanhas 
fustigadas pelo vento, para sempre.

domingo, 6 de março de 2016

A importância da metafísica para Descartes

A Árvore da Vida
                Gustav Klimt - 1909



Na obra
Princípios da Filosofia, Descartes utiliza a metáfora da árvore para elucidar a dimensão complexa da filosofia. Ele mostra-nos que não há filosofia sem metafísica. Esta é a raiz da Filosofia, por isso, é por ela que se deve começar a tarefa de encontrar os princípios fundamentais do conhecimento humano. Descartes está empenhado em construir o edifício do conhecimento em bases sólidas e é necessário compreender muito bem os alicerces ou as raízes desse conhecimento. A metafísica busca o conhecimento da essência das coisas, está para além da física, trata do domínio daquilo que não é dado aos sentidos, o seu conteúdo não é visível, tal como não são visíveis as raízes da árvore. Contudo, sem as raízes, fundamento da árvore, nada existiria de sólido. É necessário, para Descartes, encontrar o porquê dos princípios do conhecimento. Por isso ele procede a uma investigação de carácter metafísico através das regras do método (propostas na obra O Discurso do Método: evidência, análise, síntese e enumeração), inspirado na matemática, já que a sua origem é exclusivamente racional e a priori. Sem metafísica não pode haver utilidade na filosofia cujo pináculo é a moral, último grau da sabedoria que pressupõe o conhecimento de todas as outras ciências. Estas ideias apresentam um alcance notável e vão ao encontro do que Platão advogara há muito, o maior dos males é a ignorância, para praticar o bem, isto é, para exercer a moralidade, é necessário conhecimento e conhecimento do fundamento. É, em suma, impreterível ser radical, ir às raízes, tomá-las, apreendê-las, sem esse desiderato não há medicina, mecânica ou moral e portanto não há segurança nem confiança, condições imprescindíveis para o ser humano.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Ritual


depois de encetar o ritual diário
uma espécie de oração da manhã
olhando de relance as parangonas
para confirmar como algumas 
tocam a realidade que se esconde
atrás do nevoeiro infindo das coisas
na opacidade do papel
na escuridão do pensamento
parto para a fase seguinte
saborear o sal gorduroso das torradas
deglutir a cafeína e todos os aromas
só depois exponho a pele inteiramente nua
à chuva equatorial para me livrar 
sem pensar nisso, 
de umas quantas células
até que na próxima lua seja outro por fora
e quase outro por dentro
como máquina que se desconhece
cubro a pele de fibra
envolvo quase todo o meu ser com um véu
para que ninguém me descubra sem eu querer
depois torno-me figura pública e só dou
um pouquinho de mim ao mundo,  
uma quantas vibrações sonoras 
até ficar sem tempo e sem voz
retomo depois o ritual solitário
ingiro alimento de pobre saudável
descanso as articulações do pensamento
os ossos da alma e os músculos do cérebro
e sento-me na minha nuvem doce
desenhando as curvas da felicidade
na sombra dos amplexos que sonho
todos os dias até adormecer
todas as noites até amanhecer.

Tipos de conhecimento

O conhecimento por contacto consiste na nossa relação direta com a realidade e na representação mental que daí deriva. Posso afirmar que conheço Paris porque já vi, ouvi e toquei diretamente diversas partes dessa cidade e consequentemente tenho em mim um sistema razoavelmente organizado de imagens na minha memória de longo prazo sobre a complexa ideia de Paris. Em qualquer momento da vida em que me seja dada a possibilidade de evocar a cidade de Paris, o meu conhecimento por contacto permite-me dizer: conheço Paris. Mas, pelo facto de ter em mim uma série de imagens mentais de Paris posso asseverar que conheço efetivamente esta cidade?

O conhecimento do tipo saber-fazer ou saber como é uma competência ou um conjunto de habilidades pelas quais concretizamos um conjunto de movimentos observáveis, como por exemplo, saber andar de bicicleta, saber nadar ou saber tocar um instrumento musical. Este tipo de conhecimento só existe ma medida em que se mostra ou concretiza pela atividade física, é um conhecimento de natureza prática, revela-se através de movimentos ou habilidades de um qualquer sujeito e pode ser registado objetivamente. Mas será que nos conhecemos a nós próprios e aos instrumentos musicais só porque sabemos como usá-los? Este tipo de conhecimento adquire-se com exercício ou treino e mostra-se pelos movimentos corporais que conseguimos executar e certifica-se pelo feedback que conseguimos evidenciar quando nos perguntam se sabemos qualquer coisa: por exemplo, saber escutar.

O conhecimento do tipo saber-que ou proposicional é aquele que é expresso sob a forma de enunciados declarativos com valor de verdade. Este tipo de conhecimento é aquele que interessa fundamentalmente à filosofia e às ciências apesar de não ser exclusivo delas. O senso comum ou conhecimento vulgar apresenta-se também através de proposições, pode ser portanto, um conhecimento proposicional.
O conhecimento proposicional distingue-se claramente do conhecimento por contacto e do conhecimento como saber-fazer. Todos os tipos de conhecimento apresentados são necessários e até certo ponto interdependentes. Não poderei formular uma proposição de natureza empírica sobre um determinado fenómeno se não tiver partido de um conhecimento por contacto e este, por sua vez necessita do saber-fazer.


Será que só o conhecimento do tipo saber-que ou proposicional poderá contribuir para melhorar o mundo? A resposta a esta questão depende claramente do que entendermos por melhorar o mundo. Se adotarmos um ponto de vista platónico, isto significaria que um mundo melhor seria o mundo mais próximo do real/ideal, do verdadeiro mundo onde as formas perfeitas de justiça, beleza e bem dominam. Tal mundo só é detetável pelo pensamento e no pensamento. Todo o pensar filosófico se preocupa com a verdade de um modo ou de outro e se exprime através de juízos manifestados proposicionalmente, desta forma, sem conhecimento de tipo proposicional não seria possível melhorar o mundo, já que não teríamos um modelo ou um referente que nos permitisse efetuar alterações (melhorias). O próprio conhecimento do tipo saber-fazer está dependente do saber proposicional através do qual é possível reconhecer ou atribuir significado ou sentido àquilo que se faz.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Mirtilo







Tecido de sons  doce-ácidos
Roxo como mãos doridas 
Nobre de  céus tempestuosos
Bosque selvagem onde amanhecem 
Os corpos dos amantes - ar puro
De ávidos olhos à flor do dia
Pensamentos navegando rio acima
Até à fresca  nascente
Vive-nos 
Como se abríssemos os olhos
Sem os tentar fechar
Leva-nos 
Como castelos onde  brotam  viçosos
Árduos corações abraçando o destino
Inelutável no festim da vida