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quarta-feira, 30 de abril de 2014

elementos

envelhecemos com a vida a rasteirar-nos
as palavras que jamais salvarão o mundo
a poesia não salva ninguém 
progride na inevitabilidade
da negação de todas as possibilidades
vivemos morrendo aos poucos
nada  nem ninguém nos salvará
do precipício final que nos aguarda
a prosa poética e a poesia infinita
cantam a solidão e o absurdo
levam-nos a apanhar chuva
sem enregelarmos e a sentirmos frio
com um sorriso de espanto
perante o mistério tão belo e tão verdadeiro
como o pintassilgo cantante da primavera
de plumas vivas, verdes, amarelas, vermelhas
saltando de ramo em ramo na árvore 
feita de terra, água, ar e fogo.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

osmose

sou uma borboleta na noite
a bater contra a vidraça
investindo na insónia da luz
quem me dera ser crisálida 
infinitamente e sonhar
apenas o sono ardente
de quem não sente o sentimento
de quem não sofre o sofrimento
afogado no mar da infância
na inocência de ser feliz
como o gato deitado ao sol
de patas esticadas nas promessas
de não ter futuro, passado ou presente
tempo em que acordava cedinho
e descia pelos carreirinhos das encostas
a observar os pássaros e as libélulas
cantando a terra, sibilando o arco-íris
e por osmose diluía-me no nirvana do universo.


sábado, 11 de janeiro de 2014

nascer e cair

nascendo

Já lá vem o sol nascendo
por entre as nuvens frias
como pode o sol ser velho?
se ele nasce todos os dias

(popular)



cair

cai a noite
cai a neve
cai a chuva
caem lágrimas
cai angústia
no chão que piso
cai o ser
tudo cai
alta a queda
forte o tombo
tudo cai  até à tumba
tudo é ténue
tudo arde
carumba

(Pedro Reis)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

leis

     Na república romana, implantada a partir de 509 a. C., Roma procurou o equilíbrio entre três poderes: Magistratura Política, Senado e Comício da plebe. Quando havia uma crise profunda, os cônsules, magistrados supremos, escolhiam um ditador para a resolver num prazo de seis meses findos os quais era obrigado a abdicar e a  sair de cena. O Senado podia declarar o estado de crise profunda quando a situação se agravava muito mais e proclamava o regime de anomia, as leis deixavam de existir  e aí, um novo ditador, nomeado pelos magistrados supremos, gozava de uma margem de manobra de total liberdade para impor as soluções para a crise.  Esta forma de resolver as crises políticas durou até 27 a. C. quando Octávio se tornou imperador e recebeu o título de Augusto concentrando em si próprio todos os poderes. Criou-se assim o regime imperial que levou ao culto do imperador, sacerdote supremo.
      Atualmente, mesmo nas chamadas democracias "avançadas" ocidentais, onde também se inclui Portugal, vive-se um regime semelhante. Há uma crise política profunda que tem origem numa crise de valores, impera a desconfiança, a inveja, o medo, o caciquismo, a pequena e grande corrupção, o perdão fiscal, o descontrolo das competências fundamentais do Estado. A excepção tornou-se regra, a alteração da regra não sufragada é, portanto, ilegítima.
     Nada disto é novo,  Émile Durkheim (1858-1917) falava de anomia no seu livro O suicídio, de 1897, para mostrar que na sociedade há algo que não funciona de forma harmónica e também  Robert King Merton (1910-2003) no livro Estrutura Social e Anomia, de 1949, para explicar a incapacidade de se atingirem objetivos culturais devido à demissão do Estado no plano cultural, o que leva necessariamente a condutas desviantes.
     Em Portugal não há ministério da cultura, o que significa que quem gere o Estado não tem nenhum objetivo cultural. Não há política de língua, não há política educativa, o investimento nas artes e nas ciências é residual, cerca de 0,2% das despesas totais do Orçamento Geral do Estado. A crise só poderia ser debelada com maior investimento na cultura, com mais tempo de lazer para os cidadãos que se conseguiria distribuindo o trabalho por todos e não apenas por alguns. "Estranhamente" parece querer resolver-se a crise com medidas ao contrário das necessidades. 
      O último governo de Portugal, desde que foi nomeado pelo Presidente da República, dedicou-se a semear a anomia, veja-se a quantidade de leis que não são leis, sendo que algumas já foram declaradas fora da Lei (Constituição da República) várias vezes pelo tribunal constitucional. Parece que recuámos no tempo e andámos para trás mais de dois mil anos. 



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

humanidade/animalidade

     Há algum tempo, no decorrer de um diálogo, alguém versado em ciências físico-químicas disse que não gostava de filosofia por ter tido um professor-filósofo que asseverava que os animais não pensam. Mostrei de imediado a minha discordância acerca de tal ideia: os animais, a que vulgarmente se chama irracionais, pensam. Para sabermos se os animais pensam, em primeiro lugar há que ter deles o maior conhecimento possível e em segundo lugar saber o que significa pensar. Pensar significa formar ideias, refletir e imaginar. As ideias serão com certeza, pelo menos em parte, imagens relativas à realidade dada aos sentidos, isto é comum aos humanos e aos outros animais.
     Vulgarmente atribui-se ao instinto a capacidade e as competências inteligentes dos animais, e diz-se que eles se limitam a seguir as determinações pré-programadas geneticamente pela natureza. Por isso também se diz que os animais são como que autómatos e não apresentam a característica do livre-arbítrio. Nós, de um modo ou de outro, incutimos desde muito cedo, nos jovens, as ideias da culpa e da responsabilidade com base na capacidade de decidir. Deste ponto de vista, os animais não decidem porque antes disso é necessário o livre arbítrio e a deliberação. Se não decidem então não poderão ter responsablidade de nada, não têm direito a identidade jurídica nem se lhes pode atribuir direitos ou deveres, não têm uma moral, não são políticos.
     A filosofia sempre colocou os seres humanos fora da sua animalidade, ou quando muito, considerava-os animais racionais, principalmente por terem um desempenho linguístico bem diferente daquilo que se conhecia dos outros animais, esse desempenho aferia-se sobretudo pela dupla articulação, no fundo um desempenho lógico-simbólico pela palavra falada e escrita. Os animais não escrevem, ou pelo menos não escrevem de modo semelhante aos humanos, os animais inscrevem-se, marcam territórios e agem de acordo com a sua inscrição no seu habitat. Há muitos seres humanos que nada escrevem e cujo trabalho simbólico é quase inexistente ou muito incipiente. Os nossos antepassados do paleolítico, na perspetiva das filosofias humanistas, estariam mais próximos da animalidade pura do que os nossos contemporâneos porque mais próximos da vida natural. Tendia-se a identificar, em larga medida, a animalidade com a natureza e colocava-se o homem como um elemento fora da natureza, ou dentro dela para a dominar, para a instrumentalizar. Por isso os animais eram, tal como os primeiros escravos, uma espécie de ferramenta animada.
     Há pouco tempo (agosto de 2013) Jason Bruck, investigador da universidadde de Chicago, descobriu que os golfinhos têm uma memória aproximada à dos seres humanos, atribuem nomes próprios a cada membro da sua espécie e comunicam através de mensagens de grande complexidade. Onde está a diferença fundamental entre o mundo humano e o mundo animal? Estará naquilo que habitualmente se designa por consciência? Não deixa de ser interessante um artigo do filósofo inglês John Gray, do livro "sobre humanos e outros animais", intitulado "a pobreza da consciência" em que cita Margulis: "os pequenos mamíferos comunicam o terramoto ou o aguaceiro que se aproxima. As árvores emitem 'voláteis', substâncias que avisam as suas vizinhas que existem larvas a atacar as suas folhas (...) as alcateias de lobos e as extintas manadas de dinossáurios recorrem a uma comunicação propriopcetiva social (...) Gaia, a terra fisiologicamente regulada, dispunha de uma comunicação proprioceptiva global muito antes da humanidade ter evoluído." A consciência tem nesta perspetiva pouca importância para a compreensão do funcionamento do mundo. O que é determinante é a sensação e a perceção, que existem igualmemte no reino das plantas e dos animais. O mundo dado pela consciência é apenas um pequeno fragmento do que é necessário para a sobrevivência, por isso a consciência, essencialmente apresenta uma grande pobreza.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

deriva

ancoragem dá coragem
há uma direção desconhecida
o inexorável destino, a moira
desconhecemo-lo absolutamente
talvez seja essa consciente ignorância
a fonte do nosso alento
o vento obedece a mil e um desígnios
não nos vamos assustar
seguramos firmemente as nossas mãos nas mãos
se o navio se afundar também nos afundaremos
mergulharemos no abismo infinito
onde nos encontraremos incessantemente
por cada minuto percorrido
os tubarões não nos comerão
a sua barriga já está cheia do lodo
retirado para o navio partir

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Desabafo


O individualismo,  o ostracismo,
a indemnização da finança,
o pecado e a pena capital,
a violência escondida e a publicada,
o radar e a multa,
os filhos da puta,
a parada militar,
as insígnias e altas patentes,
o corruptível juiz,
a guerra sem estrelas,
as campanhas de caridade, 
a livre concorrência,
o beija-mão bajulador.
A dor de cotovelo,
as picadas dos mosquitos,
as tremelgas e os moscardos,
o aguilhão dos carrascos,
os top ten, top hundred, top thousand. 
Os inacessíveis carnavais de Veneza,
a realeza, o nobre e o plebeu,
o politicamente correto,
o sorriso amarelo profissional,
a insónia existencial, o cadáver na praia do mar do meio.
A citação obscena, a miss e o mister, tudo e tudo,
o vírus informático, o vírus coroado, o snobismo,
o veganismo e as modas das hordas.
O luxo imoral inestético, antiético,
o salário do Ronaldo, a pobreza do Aristides e
os colonatos de Israel.
Os muros sem vergonha e
a dignidade do trabalho; 
Arbeit macht frei (o trabalho liberta!)
O frango a suar hormonas
e a agricultura superintensiva.
O centro do mundo e a liberdade estátua.
A ponte de S. francisco, 25 de Abril, tão parecidas!
O Ferrari do Papa e a viagem espacial turística do Musk.
As homenagens, o culto da personalidade, 
o  terceiro mundo, a terceira idade, a terceira vaga.
A guerra santa, o fascismo humanismo,
a fatura da fratura e da rotura.
Fartos mas vivos,
não nos hão-de ladrar os sonhos.