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domingo, 14 de outubro de 2012

político-social

sentimos os murros no estômago
da realidade político-social:
os neurónios lutam entre si
na ânsia da vingança da fome,
a revolta encontra-se à solta,
as pilhas alcalinas do fígado aquecem
na iminência do curto-circuito
que há-de abalar todos os vilões.
a vida é só uma, e mesmo no fio da navalha,
não no-la hão-de ladrar, os tinhosos.
a alma do povo é grande,
as unhas dilacerantes e retorcidas
serão arrancadas a sangue quente.
o tempo não é de calmarias,
é de raiva lúcida, de beijos fulminantes,
de abraços paralisantes,
de infatigável jogo de belas
contra verdadeiros monstros.
cantos, vozes, gritos, rufar de tambores,
armas pacíficas que dão ataques de caspa.
talvez a guerra, se vier pois que venha.
por que não hão-de os infortunados
defender a sua prole? 
não será uma lei natural?
alguém já venceu as forças da natureza?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

poesia

POESIA

A poesia pode ajudar 
toda a gente,
oprimidos e angustiados,
alegres e redimidos,
resignados e coitados,
malvados e explorados,
ingénuos e astutos,
esperançados e pessimistas.

A poesia é o início e a continuação 
da pura revolução,
liberdade em movimento, 
é democracia
em estado original.
É árvore, aroma e bruma,
chuva, luz, estrela, lua.
Flor, criança na rua.
Poesia há só uma, 
a verdadeira e mais nenhuma.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

ontologia

A ontologia é a área de estudos que visa responder às questões:

1- O que é que há?
2- Porque é que há o que há?
3- Porquê o ser e não o nada?

O problema mais premente de qualquer ser humano é a determinação do seu ser pela resposta a questões existenciais através da sua prática de vida. Cada movimento que fazemos, cada olhar que projetamos, cada pensamento que nos ocorre, são respostas a questões implícitas ou explícitas. Mesmo que façamos qualquer coisa sem a ter pensado, esse fazer é uma resposta a uma pergunta implícita. Essa resposta é, nesse preciso momento, o fundamento do não ser de todas as outras possibilidades. Se a resposta for previamente pensada e determinada pela reflexão depois de ponderados a origem, o meio e o fim, então estamos a ser verdadeiramente humanos: racionais e conscientes, para além da irracionalidade ou inconsciência. O caminho que trilharmos é deste modo derivado de um processo ontológico. 

Não é possível escolher um caminho sem responder àquelas três questões.

O que é que há?
Cada ser humano tem na sua mente um conjunto mais ou menos delineado do que entende que há, dentro daquilo que legitima como existente. Para uns há deuses, centauros, quimeras, para outros há árvores, rios, terra, planetas. Para outros ainda poderão existir todos os tipos de realidade independentemente do seu grau de ser. Se não existirem deuses, com certeza não farão qualquer sentido os rituais que os invocam. Contudo há formas de realidade que não são dadas diretamente, nunca ninguém viu um eletrão ou um neutrão, nunca ninguém viu o deus ou o momento em que se terá iniciado o universo pelo big bang. Estas formas de realidade são o resultado e um processo de longas experiências e meditações. Mas ninguém pode sequer sobreviver durante um tempo razoável sem a sua ontologia, ainda que não conheça sequer o que significa ontologia.

Porque é que há o que há?
Esta questão leva-nos mais longe do que a simples elaboração de uma lista dos nossos existentes. Leva-nos a uma fundamentação. Consequentemente teremos de elaborar um argumentação que justifique as nossas opções. Essa argumentação terá de compreender premissas e conclusões que sejam aceitáveis, não apenas por nós, mas por qualquer ser humano que, conscientemente tente seguir o fio condutor dos argumentos. A historialidade, a mudança, as metamorfoses, são elementos essenciais que entram nesse corpo argumentativo. Poderemos perguntar porque é que há deuses, qual a sua natureza, função e finalidade. Dum modo geral existe tudo o que é de natureza material e energética e também tudo o que daí deriva. Há cérebro e mente e consequentemente todos os pensamentos, sonhos, ideias e ilusões neles contidos. Este trabalho de resposta de fundamentação de tudo o que há é um tarefa sem fim para a humanidade e só termina individualmente com a morte.

Porquê o ser e não o nada?
Esta questão creio que tem uma resposta no campo da fenomenologia. A causa última ou primeira do ser ou do nada não faz sentido procurá-la. O que nos dá a resposta a esta questão é um conjunto de evidências a partir de um fundo empírico e de uma constatação da consciência enquanto processo intencional. A origem do mundo e da vida, a finalidade de todos os processos mais ou menos complexos no vasto universo que somos nós e tudo o que nos rodeia serão sempre possivelmente um mistério. É este mistério, qualquer coisa inominável ou absurda, que suporta a vida e que leva os seres humanos em geral a quererem descobrir e inventar sempre mais e mais. Fernando Pessoa disse-nos que o maior mistério é haver quem acredite no mistério. Os mistérios são alimentados e suportados pelos mitos que explicam o nada e o tudo.

A ordem das questões aqui colocadas não significa que umas sejam primeiras ou mais importantes do que as outras, é arbitrária, tal como os pensamentos e imagens que vão emergindo nos sonhos que aparentemente não têm nexo racional nenhum. Contudo creio que ninguém resolve nenhum problema de fundo, muito menos de relações interpessoais mais ou menos complexas, se não passar por tentativas sérias de respostas àquelas questões. No fundo por tentar, por todos os meios ao seu alcance, combater o esquecimento e a ignorância, o maior dos males e raiz de todos os outros.

domingo, 3 de junho de 2012

prometeu



(a propósito das valas comuns na Síria)

Há por aí uma espiral
Gira e rodopia num absurdo sentido
Valas comuns
Flores de maio regurgitando a náusea do desamor
Moscas em olhos de crianças
Mãos de sangue, corações empedernidos
Terra triste, lamacenta, pestilenta
Humanismo ismo ismo
Poeira do universo num verso inverso
Mundo imundo furibundo
Terra tela telúrica
Para onde escorreu o teu leite
Mãe dos deuses e das quimeras
Aquele leite quente que amamenta
As crianças de idade tenra como a alface
Coalhou e endureceu
À força de Prometeu
Instrumento fundamental da civilização
Onde falta o pão, onde falta o pão
Há por aí buracos negros
Absorvendo o tutano dos homens
Criando lobisomens
Escurecendo o brilho da vida
Enquanto os povos ainda cantam
Os amanhãs e as primaveras
Hediondas hediondas
De  giocondas e anacondas
Nas ondas do mar que não é nosso
Caímos no fosso, no fosso
Sopa de osso osso            
Ouço caroço
Caracol de corninho ao sol
Lesma cascuda
Por isso te queimaste
E agora jazes como se nunca tivesses existido
Como se nada mas nada te fosse prometido e tudo a ti permitido. 

natureza morta



Duas bananas
Dez laranjas
Onze peras rocha
Seis maçãs amarelas
Quatro maçãs vermelhas
Quatro laranjas podres
Uma maçã amarela bichada.

Peguei naquelas quatro laranjas
E nessa maçã.
Já não eram laranjas
Já  só era meia maçã.

As que ficaram no fruteiro não se importaram.
Conformaram-se com o destino:
Serão tragadas por uma boca qualquer.
Não têm sistema nervoso
Mas têm casca e pele.
Nasceram, viveram e estão a morrer
Tal como nós,
Dentro da película fina ou cascuda que nos envolve.
Afinal não há diferença ôntica entre nós e a fruta, comida ou por comer.

sábado, 26 de maio de 2012

crise e consciência

Cogito ergo sum, penso logo existo, era esta a fórmula cartesiana da consciência. Existiu enquanto informadora da substância pensante e fundamento ontológico: duvido logo sou, se duvido penso, se penso existo. Esta fórmula de consciência durou desde o século XVII de Descartes (1596 - 1650) até ao século XX, até à criação da fenomenologia por Husserl (1859  - 1938). Para Husserl a consciência não é uma substância, a fórmula é diferente: ego cogito cogitatum, eu penso, mas penso sempre alguma coisa, a consciência não é um receptáculo que se pode encher de informação, é um fluxo de vivências intencionais. A característica fundamental da consciência é a intencionalidade. Este modo de intuir e de pensar a consciência foi revolucionário, permitiu compreender a crise das ciências, já que o seu problema fundamental coincidia com a crise da consciência. O trabalho científico é uma actividade intelectual incessante de compreensão, intuição e análise dos fenómenos. Esses fenómenos são o que vem à luz, o que é dado à consciência, sempre projectiva. Só a consciência enquanto fluxo intencional de vivências nos permite colocar qualquer coisa entre parêntesis, a épochê ou redução fenomenológica: isolar intencionalmente um conjunto de factos, opiniões, evidências, provisoriamente, para assim os analisar. Este método é válido para qualquer tipo de actividade cognitiva e requer uma atitude diferente da atitude natural e ingénua. O "objecto" da fenomenologia é o fenómeno isto é, tudo o que é dado à viva consciência e ao qual  temos um acesso directo, sem intermediários. Esse objecto é subjectivo e é também intersubjectivo porque os sujeitos comunicam entre si e sempre de uma forma intencional. Quando falamos em objectividade o que queremos dizer é apenas o resultado de um processo de intersubjectividade. A fenomenologia e o método fenomenológico são provavelmente o que de mais interessante e profícuo já se produziu até hoje no campo das ciências epistemológicas e na filosofia. 
A saída da crise é também uma saída da nova crise epistemológica que acontece neste início do século XXI. As ciências, nomeadamente as ciências sociais como a antropologia, a psicologia, a história, a sociologia e a economia, encontram-se numa crise profunda que se sente na cultura e no terramoto económico-financeiro e social em que o mundo vive hoje. Cada ciência apresenta a sua mundividência, já vivida pelos cientistas e não compreendida pelo sujeito comum. Estão por realizar quase todas as revoluções científicas porque elas não estão ainda devidamente vividas e interiorizadas por um número suficiente de sujeitos. Estão por concluir as revoluções freudiana, darwiniana, marxista, informática, etc. Todas juntas formam uma revolução cultural. Para sair da crise global é necessária uma revolução global, interpenetração e entrosamento recíproco de todas as revoluções parciais que, para se processarem e se concluírem, terão que derivar de uma revolução individual de cada um com base num método fiável e que permita alguma segurança: a revolução fenomenológica.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

VERDADE

Num dos mitos gregos, quando alguém morre, a alma separa-se do corpo e é conduzida ao Hades, reino subterrâneo ou dos mortos, e sujeita a um exercício: beber água do rio Lethes, o rio do esquecimento. Aí permanece durante algum tempo sem memória, e assim, apta a reencarnar num novo animal, que pode ser um  humano. 
Quando chegar a altura própria, entrará num corpo novo acabadinho de nascer e este novo ser terá que recordar o que a alma esqueceu por ter bebido água do rio do esquecimento. A vida dessa pessoa não será mais do que um incessante processo de aprendizagem, de recuperação da memória perdida pela morte do anterior recetáculo, o homem ou animal cujo corpo foi entregue à terra. 

Verdade, em grego,  é aletheia (αλήθεια), negação do esquecimento, privação do efeito da água bebida pela alma no rio Lethes, conhecimento.

A verdade é tema de mitos que muito ocuparam e ainda preocupam muitos pensadores, filósofos, poetas, cientistas, teólogos, artistas. 
Num mundo onde cada vez é mais difícil distinguir o verdadeiro do falso, veja-se a miríade de notícias falsas, como por exemplo, a propaganda das guerras que decorrem neste momento em várias partes do mundo, o cidadão comum é cada vez mais manietado, manipulado, "lobotomizado", principalmente pelos meios de comunicação como as TVs.

Xenófanes, filósofo grego (c. de 570 AC - c. 460 AC) escreveu qualquer coisa como isto:

Os deuses não revelaram, no início,
todas as coisas para nós; com o correr do tempo, entretanto,
pela pesquisa, podemos saber mais acerca das coisas.
Contudo, a verdade certa, nenhum homem a conheceu,
nem chegará a conhecer, nem os deuses,
nem mesmo acerca das coisas que menciono.
Pois ainda que, por acaso, viesse a dizer
a verdade final, ele próprio não o saberia:
pois tudo não passa de teia urdida de pressupostos. (1)


A verdade não é um processo acabado, é sempre relação:  entre pessoas, entre palavras e coisas, entre pessoas e palavras, entre palavras e palavras.

Entre pessoas, como oposição a mentira; 
entre palavras e coisas, como correspondência entre elas; 
entre pessoas e palavras, como adequação do pensamento ao discurso; 
entre palavras sobre palavras, como metalinguagem. 
Pode ser a adequação entre o pensamento e a realidade.
A linguagem (palavra) é a realização, por excelência, dos humanos.
Pela linguagem os seres humanos, na sua singularidade e pluralidade, recriam-se, ampliam o seu grau de consciência individual e coletiva. Tornam-se cada vez mais humanos no seu desenvolvimento numa dimensão espácio-temporal, cultural, num fluir imparável e histórico.

Buscam a verdade o detetive, o juiz, o cientista, o teólogo, o artista, enfim, toda a gente. 
Esta procura confunde-se com a própria vida. 
A vida é emoção, sentimento e razão, descoberta de cada um por si próprio e dos outros por cada um, subjetiva e intersubjetiva, em busca da objetividade, da verdade.

Entre o ser humano e a verdade há um manto adiáfano dificultando o conhecimento e mantendo suficientes camadas de esquecimento que garantem a vida caracterizada como mundo em perpétuo movimento.




(1) in  Brian Magee, As Ideias de Popper,  Cultrix, Un. S. Paulo, 1984, p.30