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quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

FLORES DE CAMPO MAIOR

 

As flores de Campo Maior

são as que nos fazem sorrir,

feitas de suor, arte e amor,

todos as querem ver florir.


Campo Maior, jardim encantado,

onde se constroem sonhos e vidas,

qual novo mundo alcandorado

de  maior valor que as sete partidas.


Chão de humilde e hábil gente,

de trabalho, dedicação e alegria.

Aqui, fácil é andar contente,

Cá  viver e morar, é uma regalia.


Nesta terra nascem flores

Só quando o povo quer,

desabrocham saias e amores

que fascinam quem cá vier.


Representando a  humanidade,

património cultural imaterial,

dizemos agora, com vaidade,

grande orgulho para Portugal!





quinta-feira, 14 de outubro de 2021

DIA INTERNACIONAL DA MULHER RURAL

(15 DE OUTUBRO)

Neste dia, que é mais um, entre muitos outros, que nos podem fazer refletir sobre causas e problemas, independentemente de concordarmos ou não com dias para isto ou para aquilo, faz sentido pensar sobre o tempo e sobre o trabalho em que se encontraram e se encontram muitas mulheres.

Ocorreram-me a este propósito duas obras de arte que nos fazem pensar sobre o tema em questão, uma pintura e um filme.

As Respigadoras - é uma pintura a óleo sobre tela do pintor francês Jean-François Millet de 1857 que se encontra no Museu de Orsay em Paris.


O quadro representa três camponesas ao respigo de espigas de trigo caídas no chão após a colheita. A pintura tornou-se famosa por apresentar de forma simpática as que então eram as camadas mais baixas da sociedade rural, tendo sido mal recebida pela alta sociedade francesa da época.
(Fonte: Wikipédia)

Este trabalho de andar ao respigo (rabisco) parece ser só dos séculos XIX e XX, mas talvez não seja assim exatamente.
Veja-se, por exemplo, a imagem seguinte, baseada na pintura que referi, do século XIX:

Fonte: Blogue "Geografia Hoje"

Há um filme, "Os Respigadores e a Respigadora" (Les Glaneurs et la Glaneuse) de Agnès Varda, sobre os respigadores da sociedade contemporânea, pessoas que se dedicam a recuperar e a reciclar sobras e detritos que outros deitam fora, que nos interpela vivamente sobre estes fenómenos contemporâneos. Obteve inúmeros prémios, entre os quais se destacam o de melhor documentário dos prémios europeus, melhor filme pelo sindicato francês dos críticos de cinema e o Golden Hugo para melhor documentário no festival de Chicago, no ano 2000. Creio que vale a pena vê-lo ou revê-lo.
Isto a propósito do fenómeno do êxodo rural que se mantém e que não resolve nenhum problema de fundo, nem daqueles que saem das terras do interior nem daqueles que vivem no litoral, antes agrava os problemas de todos, nomeadamente os ecológicos e do planeta.
Muitas das gentes, principalmente mulheres, que vão para as grandes cidades, principalmente no litoral, são pessoas de fraca qualificação profissional e que enfrentam grandes dificuldades para conseguir um trabalho digno e bem remunerado. Como se sabe, só o Alentejo, por exemplo, perdeu nos últimos dez anos 7% da sua população, em grande parte pelo êxodo também rural. Só houve um concelho, dos 47 da região Alentejo a ver um aumento da sua população, também pelas más razões conhecidas do grande público, pessoal imigrante de países subdesenvolvidos para trabalho escravo e sub-humano para culturas intensivas e superintensivas no concelho de Odemira.
Esta é uma tendência que parece não ter fim. Até quando? 
Será que as pessoas acordam e se opõem a isto, criando condições para que haja uma distribuição equilibrada da população em harmonia com a cultura, com a tradição e com as paisagens tradicionais? Quando será possível viver bem e ter acesso ao essencial em qualquer lugar do nosso país e do mundo? O que é necessário fazer? 

Ficam as perguntas, no entanto creio que as respostas, para além de serem políticas, tais como as questões, terão de ter por base uma inspiração fortemente verde e de esquerda, responsável e solidária, cujas soluções ainda não foram globalmente experimentadas.









quinta-feira, 26 de agosto de 2021

IGUALDADE FEMININA

“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade”, afirmou José de Almada Negreiros em "A invenção do dia claro", em 1921.

Para que a igualdade das mulheres, cujo dia hoje celebramos, seja uma realidade, podemos dizer o mesmo. Só falta mesmo é garantir, de facto, a igualdade na prática, só falta mesmo, salvar as mulheres, a igualdade feminina. Em muitos países do mundo, nomeadamente no nosso, essa igualdade já está na lei fundamental, mas não é cabalmente cumprida.
Para combater as desigualdades não basta apregoar que as desigualdades devem ser combatidas. É preciso muito mais do que isso. É preciso partilhar responsabilidades e tarefas, garantir os salários com equidade, não permitir que um homem, só por ser homem, ganhe mais do que uma mulher, no mesmo trabalho, nas mesmas funções. A igualdade fundamental, mas não única, é a igualdade económica, só ela permite a emancipação da pessoa, seja ela homem ou mulher. O salário emocional ( o elogio, o reconhecimento, o afeto positivo) também deve ser equitativo e basear-se no princípio da igualdade. Este princípio afirma que ninguém é superior ou inferior enquanto ser humano, enquanto pessoa. Toda a gente é pessoa, como por vezes se diz. 
Este princípio é um imperativo ético e moral que reconhece e confere dignidade a todo e qualquer ser humano, seja homem, mulher, masculino, feminino, heterossexual, LGBTI ou o que quer que seja…

  No Afeganistão, de que tanto se fala agora,  a desigualdade é tão grande, abominável e  horrenda, que até se nega às mulheres o direito de existir. A burca, veste comprida que envolve todo o corpo, dos pés à cabeça, com uma abertura rendilhada à altura dos olhos, usada em público por muitas mulheres muçulmanas, é uma das formas de  negação da existência e, por conseguinte a negação absoluta de quaisquer direitos de quem a usa.
 
Apesar de nós, portugueses, felizmente, não vivermos num regime desta natureza, ainda há hoje, no nosso país e eventualmente  na nossa terra, muitas mulheres que se sentem mulheres coisificadas, mulheres objeto, tal como a Luísa no poema de António Gedeão "Calçada de Carriche", que "Saiu de casa / de madrugada; regressa a casa / é já noite fechada." (…)
Poderíamos tentar enumerar algumas das mulheres que se destacaram com a sua coragem, tenacidade, criatividade e amor, exemplos para a humanidade: Hipátia, Joana d'Arc, Dandara, Marie Curie, Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Rosa Luxemburgo, Maria Lamas, Beatriz Ângelo, etc.. A lista seria interminável, porque de facto  houve, há e certamente haverá muitíssimas mulheres que são exímias como seres humanos, desde logo, porque muitas delas são mães.  Nessa lista está a mãe de cada um de nós,  a melhor mãe do mundo, como não nos cansamos de sentir e de repetir.
Ser mãe é ser uma força da natureza, é agir sempre, a toda a prova e em todo o lugar,  de acordo com um amor gigante e incondicional.

Sabemos dos estereótipos e dos preconceitos sobre o feminino e às vezes, nós, homens e mulheres, quase que somos levados por eles em momentos de fraqueza e de estupidez, por isso nunca é demais combater a todo o momento tudo o que se opõe à igualdade feminina: a exploração económica e  sexual,  a coisificação das mulheres, o assédio, o medo, todas as formas de violência física e psicológica, todas as ameaças, todas as prisões.

Termino com uma frase de uma grande mulher, Rosa Luxemburgo, (1871 -1919) que é um apelo a todos para que não se imobilizem, para que se ponham em movimento lutando pela dignidade humana, que é também a dignidade da Mulher: "Quem  não se movimenta, não sente as correntes que o prendem". Vivam as mulheres de todo o mundo!

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Natureza

 Dia mundial da conservação da natureza

Hoje, 28 de julho, dia mundial de conservação da natureza, recebi, sem solicitar, na minha caixa de correio, cerca de 300g de papéis publicitários (100 folhas A4) de diferentes empresas, nomeadamente de supermercados.

Esta papelada, que me é remetida várias vezes por mês, é impressa a cores com fotografias e desenhos a cores de alta qualidade de todo o tipo de produtos e mercadorias. Os custos de produção desta publicidade são, com certeza, muito significativos no domínio do investimento financeiro das empresas. Mas, se estas práticas continuam, certamente é porque valerá a pena, para as tais empresas, algumas multinacionais, do ponto de vista do aumento das vendas, do consumo e logicamente do lucro. Este parece ser o principal, se não o único, objetivo dos seus donos e acionistas.

Portugal tem, segundo dados da Pordata, um pouco mais de 4 milhões de famílias clássicas. Imaginemos que cada família recebeu, o que é bem possível, no dia de hoje, os tais 300 gramas de papéis publicitários.  Poderão ter sido distribuídos 1 200 toneladas de papéis publicitários (400 milhões de folhas A4) às cores por todas as caixas  de correio deste país.

"Uma árvore padrão na produção de papel, como o eucalipto, é capaz de produzir 20 resmas de papel. Como cada resma possui 500 folhas, 20 resmas possuem 10 mil folhas tamanho A4 de 75 g/m2  por tronco. Se uma árvore é capaz de dar vida a 10 mil dessas folhas, isso significa que para produzir uma folha de papel é necessário 1/10.000 de árvore."(1)

Deste modo, para produzir publicidade em papel para um dia, para as famílias clássicas portuguesas, será necessário abater 40 árvores.

Abate de árvores completamente desnecessário. Na minha casa, como com certeza em muitas outras, a publicidade nem sequer chega a ser lida, vai direitinha para o contentor da reciclagem de papel.

Os números aqui apresentados podem não ser rigorosos, mas fazem-nos pensar no estilo de vida que temos e no que queremos.  Na sociedade individualista, consumista, capitalista, concorrencial,  em que vivemos, em que o lucro de alguns comanda  quase todas as atividades de quase todos, não vai ser possível viver a  médio e longo prazo com qualidade, porque o equilíbrio entre os humanos e a natureza e  a preservação da biodiversidade não estão a pautar o planeamento e a ação necessários. As árvores são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas e para a nossa  qualidade  de vida. É mais do que tempo de inverter políticas de desperdício, das quais apenas apresento aqui um exemplo. Para isso são necessárias opções individuais, que juntas serão coletivas, elas estão na nossa mão.




(1) https://www.pensamentoverde.com.br/

domingo, 18 de julho de 2021

AMAR UMA PEDRA

Como nos sonhos, passo o tempo a inventar porquês.

Indiferentes, os eletrões, o sol, a via láctea,

continuarão por aí, sem consciência, julgo eu, 

indiferentes à vida, à morte e ao sentido de tudo isto.

E se o sentido da vida for ela não ter sentido nenhum?

O universo, como a vida, é mortal e finito,

mas a invenção de porquês continua.

Nenhuma resposta existe fora de nós.

Na aflição da consciência, ora leve ora pesada, 

descobrimos o valor, o significado e  o propósito, 

pouco mais do que teatros, comédias e tragédias. 

Mas o mundo continua a vibrar, como cordas de alaúde,

e nós, ao vibrarmos com ele, sentimos a impressão

da liberdade, como Fernão Capelo Gaivota, voando 

ou Fernão Mendes Pinto, peregrinando.

Liberdade sem livre-arbítrio, 

ser e não ser, ao contrário de Hamlet.

Ai que bom sentir a manhã  de água fresca,

realidade e ilusão verdadeira e boa.

Submergido como uma  tremelga, 

vou descarregando choques  elétricos nos outros

e recebo os ricochetes na justa medida, 

não há dar sem receber, principalmente 

quando se oferece o desassossego.

Às vezes, irritado, anseio por um mundo

onde seja natural até, amar uma pedra.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

cinzas

Quarta-feira de cinzas,
cinzentas, místicas,
engendradas a preto e branco,
saudade de arco-íris
num certo espaço da alma
e comistão de todas as cores,
vertigem neuronal do disco de Newton;
efabulações, manifestos do pensamento,
qual contentamento de criança
a ver o mar pela primeira vez,
ou sentimento de realidade
pintada por Miró;
como se tivesse acabado
de vir ao mundo e, tendo vivido,
renascesse, depois de morrer
no último ato de um sonho
instituído por um génio maligno
destilando surtos e quarentenas.
Mais do que isto,
é a vida tão colorida,
como a Fénix Renascida.
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Foto: Bestiário de Aberdeen (1200 d C)



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

dia de inverno

No meu pensamento de hoje
é inverno e chove desalmadamente.
Sucedem-se-me, na consciência,
frios instantes em linha real,
como patinhos acabados de nascer,
seguindo a mãe, ou Konrad Lorenz,
para todo o lado, em fila serpenteante.
Nós, humanos, não somos assim,
andamos às ochas, as mais das vezes, para nada.
Tanto que podemos aprender com eles,
assim como com os pingos da chuva
que voam quase a prumo, de cima para baixo,
ordeiramente, sem pressas nem ansiedades,
em inteira liberdade, apenas com ligeiros
desvios naturais. Seguem-se uns aos outros,
numa razão tão reta que espanta e emociona.
Tudo isto me apraz tanto que, ainda bem não,
me esqueço do confinamento e das tristes notícias
sobre a corrupção que grassa por esse mundo fora.
Assim, vou derramando um pouco de tinta
otimista, como os pingos de chuva e os patinhos,
nestes espaços em branco,
só para não cair na desgraça que perpassa.