Julho de imperial ambição
cuja efígie no denário se impõe,
leva ao amor em todo o coração
e em toda a alma e em todo o entendimento,
amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Pague-se a César o que é de César,
pague-se a Deus o que é de Deus.
Em julho amor com amor se paga
porque há tempo para tudo, longo mês,
grandes dias, infinitas perguntas.
O que é o amor? Quem sou eu?
E dou por mim a dar o que não tenho,
palhaço de mim mesmo, incompleto,
dependente, a correr da vida, como
uma lagartixa que foge de quem lhe cortou
o rabo que salta na terra quente sem regra.
Julho dá o pão e o gorgulho,
aremos e fiemos, pois, e ouro criaremos.
Mas para quê tanta riqueza,
se o essencial é invisível aos olhos?
Além, mais além, há ilhas floridas,
águas frescas, vento soprando, trigo limpo,
danças, quadros vivos de Matisse,
confinamento verde, azul, laranja-terra,
num turbilhão louco de mãos dadas,
nus, como no paraíso perdido inicial.
Em julho tão quente e tão perto,
tão simples e tão certo, leva-me contigo
a ver as estrelas das planícies
e a tremer de encanto com o canto das aves.
sexta-feira, 17 de julho de 2020
terça-feira, 7 de julho de 2020
junho
Cálidas aragens,
nos arraiais e romarias,
amores afoitos e ousadias,
acanhadas as noites, não os dias.
Meio ano vencido,
outra metade para sonhar,
trabalha a formiga
enquanto nos encanta a cigarra,
acanhadas as noites, não os dias.
Meio ano vencido,
outra metade para sonhar,
trabalha a formiga
enquanto nos encanta a cigarra,
com o seu cantar.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
maio
Ao cair do pano de abril
apresentaram-se as
cerejas e os pirilampos e tantas,
tantas flores, riachos encantados,
carreirinhos nos bosques
animados pelos amores:
maio moço a chegar,
alcântara para o verão que dorme
alcandorado no tempo da saudade
que em nós demora.
Maio lágrimas à distância,
sonhos por realizar,
pecados e corpos por animar.
Maio música feita de amor e de silêncio
enquanto o sol seca o que o tempo molhou.
Maio flor e fruto, semente na terra fria e ardente.
Maio toda a gente, mares desejados,
jogos da cabra-cega ao lusco-fusco,
prados e serranias, praias, aldeias
onde moram litanias, luzes pequeninas
bruxuleantes e céus, cruzes e estrelas,
aqui no cantinho da galáxia
onde nascemos, onde nos encontrámos
e de onde jamais sairemos
por sermos próximos e amarmos,
à moda de flores e abelhas,
como velas ao vento acesas.
apresentaram-se as
cerejas e os pirilampos e tantas,
tantas flores, riachos encantados,
carreirinhos nos bosques
animados pelos amores:
maio moço a chegar,
alcântara para o verão que dorme
alcandorado no tempo da saudade
que em nós demora.
Maio lágrimas à distância,
sonhos por realizar,
pecados e corpos por animar.
Maio música feita de amor e de silêncio
enquanto o sol seca o que o tempo molhou.
Maio flor e fruto, semente na terra fria e ardente.
Maio toda a gente, mares desejados,
jogos da cabra-cega ao lusco-fusco,
prados e serranias, praias, aldeias
onde moram litanias, luzes pequeninas
bruxuleantes e céus, cruzes e estrelas,
aqui no cantinho da galáxia
onde nascemos, onde nos encontrámos
e de onde jamais sairemos
por sermos próximos e amarmos,
à moda de flores e abelhas,
como velas ao vento acesas.
sábado, 25 de abril de 2020
25 de abril
Abril trouxe-nos a libertação das grilhetas da ditadura, devolveu-nos a alegria de viver, plasmou-se, durante todos estes anos, com maior ou menor intensidade, em conquistas notáveis que contribuíram para a felicidade de muitos milhões de portugueses e para um novo sentido da história, exemplo para o mundo: paz, pão, habitação, saúde, educação, cultura, liberdade.
Conquistámos, também, com Abril, novos deveres, novas responsabilidades e novas obrigações, fundados numa causa maior: a Democracia.
A Democracia, livre pensamento, deliberação e execução das decisões tomadas pelos cidadãos num tempo útil em que os próprios são responsáveis por todo o processo, das ideias à materialização dos projetos.
A Democracia não é compatível com a alienação dos cidadãos em nenhum momento, realiza-se a todo o tempo e em todo o lado, principalmente na esfera pública, é ela que decide o que é público e privado.
A Democracia é o exercício da ética universal, não deixa ninguém de fora, regime político do caminho para a felicidade dos povos, prática do respeito absoluto entre todos os seres humanos, independentemente da sua condição socioeconómica, religiosa, cultural, ideológica, sexual, geográfica, étnica ou filosófica: sustentáculo do Estado que deve ser sempre um Estado de Direito Democrático, um Estado Social.
Viva o 25 de abril
Viva o 25 de abril
quinta-feira, 23 de abril de 2020
abril
No tempo de mil mágoas
abril traz-nos da vida o sentido,
como se fôssemos prímulas, tulipas,
margaridas-do-monte.
Aprillis abre a porta da alma:
as mentiras do primeiro dia - plaisanteries -
tão necessárias como as verdades,
refrescam-nos o coração.
As vaidades, os sonhos esquecidos,
as insónias que apertam a existência,
a decrepitude do corpo, os achaques da imaginação;
dão lugar ao nascimento de pétalas frescas
cuja queda mostra os frutos ainda tão pequeninos,
promessas grandes por cumprir.
Abril é isto, janelas limpas e transparentes,
portas a abrir devagarinho como se fossem
vozes a passar de boca em boca, baixinho, como os segredos,
como as águas da consciência, lúcidas e inebriantes.
Abril é um tempo que cabe numa palavra: desconfinar,
ainda que só em pensamento, sem desconfiar,
ainda que só em pensamento, sem desconfiar,
porque a fruta oferecida pelo inverno deu-nos força suficiente
para abraçarmos a primavera
para abraçarmos a primavera
que veio ao nosso encontro e nos quer vivos.
quarta-feira, 11 de março de 2020
RECADO PARA UMA ANDORINHA
Quando o Inverno
não é Inverno e as lágrimas
regam a esperança
por dias melhores,
acabo por me lembrar de ti,
andorinha.
Por ti anseio
como criança desalmada
dançando por mor da chuva,
que desejo e que tarda.
Trarás água, vida e luz
a todas as praças e ruas,
aos nossos corpos inteiros,
aos animais, aos rios,
às florestas, aos mares,
às planícies e às montanhas.
Anunciarás o vento ligeiro,
as flores, as borboletas,
as abelhas e a Primavera.
Contigo virá tanta alegria,
semeando beijos e abraços,
que nos haveremos de juntar
irmanados por fortes laços.
Virão rubras rosas e papoilas,
e tantas flores
de tantas outras cores,
que as almas perdidas
de tão coloridas,
se encontrarão
para morrer de amores.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Natal de Adofreire
O céu estrelado.
O musgo frio, as ovelhas
e os pastores velando por elas.
A mãe de Jesus,
o pai adotivo do menino,
o burrinho e a vaquinha.
Os reis magos ao longe,
guiados por uma estrela
sobre a gruta humilde e fria.
Na noite meio-luminosa,
um lago brilhante
de folha de alumínio.
O menino quase nu
na manjedoira bafejada.
Na rua, junto à capela,
Eram assim os natais
quando todos os nossos entes queridos
O musgo frio, as ovelhas
e os pastores velando por elas.
A mãe de Jesus,
o pai adotivo do menino,
o burrinho e a vaquinha.
Os reis magos ao longe,
guiados por uma estrela
sobre a gruta humilde e fria.
Na noite meio-luminosa,
um lago brilhante
de folha de alumínio.
O menino quase nu
na manjedoira bafejada.
Na rua, junto à capela,
a fogueira enorme,
brilhante de espadas de chamas
desafiando os céus.
E no dia seguinte de manhãzinha,
os sapatinhos com as prendinhas
no silêncio frio da chaminé.
Um paizinho natal de chocolate,
uma escovinha de dentes,
umas meias para o inverno.
A memória do quentinho da lareira
e o frio lá fora e as brincadeiras
das crianças, os risos, as férias,
a descontração de ser feliz
quase sem dar por isso.
brilhante de espadas de chamas
desafiando os céus.
E no dia seguinte de manhãzinha,
os sapatinhos com as prendinhas
no silêncio frio da chaminé.
Um paizinho natal de chocolate,
uma escovinha de dentes,
umas meias para o inverno.
A memória do quentinho da lareira
e o frio lá fora e as brincadeiras
das crianças, os risos, as férias,
a descontração de ser feliz
quase sem dar por isso.
Eram assim os natais
quando todos os nossos entes queridos
estavam vivos e quase ninguém chorava
porque o presente era infinito.
porque o presente era infinito.
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