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domingo, 29 de outubro de 2023

AGOSTO

Os rios choram paulatinamente,
os lagos sofrem todas as suas imagens,
as gaivotas pensam o sacrifício dos peixes,
as feras sonham com as suas presas,
os vulcões esperam pacientemente
pela hora de expelir a lava ardente,
os marinheiros alimentam a expetativa
dos ventos alísios e do seu ímpeto
de leste para oeste
à procura de um mundo novo.
Em agosto toda a fruta tem gosto,
não percamos da vida a esperança,
depois da tempestade há-de vir a bonança.

GATOS

Meigos e selvagens,
assertivos e determinados,
altivos e fofinhos,
os gatos, joias da criação,
merecem toda a admiração.
Quando os alcanço ao sol
no tom da sua calma,
usufruo da argúcia
dos seus finos olhares.
Se não são felizes, parecem-no,
por isso gostamos deles,
respeitam-nos sem ressentimentos,
não nos cobram tristezas
e fazem-se respeitar
mais do que alguns humanos,
por isso têm sete vidas
e nós só temos uma.

FOTOGRAFIA

Pelos nossos olhos passam imagens,
verdadeiras ilusões de óptica,
não são uma cópia
perfeita da realidade
mas permitem-nos entrar
no mundo dos sonhos.
São estes que nos garantem
as surpreendentes viagens
da vida e as emoções,
tanto as fáceis como as difíceis,
que configuram a nossa essência.

FUNDAMENTO

As galáxias e suas miríades de astros,
o Sol que nos ilumina, os planetas,
a sequoia de Serralves, a planície Alentejana,
as águas do Nilo, lágrimas do Assuão,
as múmias do museu britânico roubadas ao Egipto,
o friso do Partenon subtraído à acrópole de Atenas,
a pedra de roseta do império otomano,
os filhos desejados, os jogos de toda a sorte,
as viagens reais e imaginadas aos confins do mundo,
as filosofias, as religiões, todas as artes,
D. Quixote, Rocinante, Sancho Pança, Dulcineia,
os Lusíadas, a ilha dos amores e os deuses,
o Adamastor, o velho do Restelo,
o bíblico cântico dos cânticos,
as montanhas-russas reais e virtuais,
a quinta sinfonia em dó menor 
opus sessenta e sete de Beethoven.
Tudo parece imerso numa onda infinita,
tudo mexe e remexe e repousa, tudo cai ou se eleva,
tudo vagueia sem saber porquê ou para quê.
Tudo procede do nada
e incessantemente se desdobra
nos mais incríveis adejos
em busca do princípio da razão suficiente.
Como é estranho, admirável e fascinante
este mundo, nele podemos erguer as taças
em honra do amor e da amizade,
fundamentos de tudo e da sua finalidade.

OUTUBRO

 OUTUBRO

Setembro mais um é outubro,
o que nos pode fazer pensar
no oitavo mês do calendário romano,
e por semelhança numérica,
num animal de oito braços
que se mostra na cor do outono,
de olhos argutos e bico quitinoso,
de grande cabeça, sem esqueleto
que o defina.
Espalha a sua tinta quando quer,
pinta como um artista,
escreve como um poeta,
edifica o seu mundo
quase humano, perguntando,
e nós com ele, (por que não?) :
e se neste mês eclodisse
uma revolução
que destruísse o pecado,
varresse a culpa
e apagasse todo o ressentimento
do mundo?

terça-feira, 1 de agosto de 2023

LUA CHEIA


Os teus olhos
disseram-me,
olha a Lua, 
cresceu e agora está cheia.
Por isso tenho a consciência
cheia de lua
e isso apraz-me.
Quando era criança 
disseram-me que a Lua 
era mentirosa. 
Não queria acreditar
porque não via lógica
na Lua como causa
e autora da mentira.
Ainda acho 
que a Lua é verdadeira,
por isso a identifico
com a verdade 
e vejo-a a sorrir,
ao contrário
do que me diziam.
E apetece-me, 
proclamar,
Lua como és bela,
leva-me contigo a passear
por esse universo fora
e a juntar o amor
e todos os sorrisos
do mundo para derrotar
de uma vez por todas,
o ódio, a perfídia e a mentira.

©PR 

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Rua da poesia

A poesia liberta

porque desaperta 

o nó da garganta 

e até própria desgraça espanta.

A poesia dá flores, frutos  e pássaros,

é como as nuvens do céu, 

gotinhas de água fresca,  

como sementes que caem 

nas línguas de sede estendidas 

inundando a inconsciência dos corpos. 

Quando passeamos na rua da poesia 

das árvores deitam folheados rebentos, 

que crescem e transformam  

os gases tóxicos em oxigénio  

pela fotossíntese do amor.