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quarta-feira, 24 de maio de 2023

Dia do abraço


Com o andamento do tempo
e as voltas que a vida dá,
como borboleta em fuga,
vou perdendo escamas
por entre os cardos do campo
numa aflição de querer viver
enfrentando as ondas
de um inóspito mar de vento.
A realidade apanha-me de soslaio,
desequilibrado fico, e só não caio
porque alguém me encontrou
e com um abraço me salvou.
©PR

domingo, 21 de maio de 2023

Vida

A vinda de cada um ao mundo não foi por si decidida, ninguém pediu para nascer, o princípio da existência de cada ser humano deve-se a razões extrínsecas a ele próprio. Continuar a viver e como fazê-lo já é outra história. É preciso crescer, é preciso aprender. Ninguém aprende sozinho, ninguém cresce só. À parte isso, quase tudo devemos ao pai e à mãe, foi deles a incomensurável coragem de nos trazer ao mundo e de nos incentivar a caminhar na urgência da vida. Homenagear os nossos pais é seguir-lhes os trilhos e imitá-los ancorados nos mesmos princípios: paz, liberdade, amor. Assim estará garantida, do que humanamente depender, uma vida boa para todos. Haverá amizade, respeito, trabalho sem alienação, partilha das riquezas sociais, económicas, culturais e muitas e longas vidas saudáveis e felizes.

Nenhuma vida será perfeita, com certeza, mas nenhuma será uma vida perdida.




domingo, 1 de janeiro de 2023

Receita para um bom 2023

Tome-se uma mão cheia

de palavras cristalinas,

uma dúzia de pétalas 

de flores várias,

por exemplo, azálea,

crisântemo, camélia;

uma rosa vermelha 

nascida no inverno,

um pensamento positivo 

cor da esperança,

mãos dadas, abraços

e beijos gratuitos,

bons livros para ler,

boa música para escutar,

amor, amizade, alegria,

trabalho não alienado

devidamente organizado

bem planeado, cultural,

cinema clássico, teatro,

dança, viagens q. b.,

respeito pela natureza,

ausência de avareza,

direito à justiça, ar puro,

combate à guerra e à poluição,

ciência e boa educação.

Sem pressa, ordeiramente,

tempere com liberdade,

misture os ingredientes

com carinho, prove

para confirmar a verdade

e sirva o seu semelhante

pela pauta da igualdade.

 

©PR


quinta-feira, 21 de julho de 2022

AMIGOS

Neste Verão
longo, estranho e quente,
espreito à janela da minh’alma
e vejo uma roda de amigos
dançando e cantando a liberdade.
Oiço cordiais relatos
de compaixão, de alegria e de amizade.
Mas nenhuma palavra
é suficiente para matar a saudade
das sublimes peripécias das nossas vidas
que se abraçam cá dentro do peito,
agora e sempre sem parar.

domingo, 17 de julho de 2022

SAUDADE


Ao procurar, anos a fio,  
compreender o universo,  
desemboquei, sem perder a esperança 
por dias melhores, 
num certo nada que me entorpece.
Sinto-me como um rio 
que desagua no deserto
barateando o lucro existencial 
às escondidas do mundo.
Por isso ainda falo 
para a criança de mim,
infante e crédula,
apaixonada pelo mundo. 
Onde ficou a vida que trocavas
pelo sorriso dos outros 
e pela morte fingida 
nos jogos de índios e cobóis?
Onde mora a tua antiga 
e absoluta liberdade?
Era tudo tão verdadeiro,
deitada no feno, 
inscrevias a vida
nas nuvens passageiras
enquanto escutavas canções de amor 
no murmúrio imediato dos arroios.
Como era simples e tão puro 
aquele tempo, presente
sem passado nem futuro.



quarta-feira, 13 de abril de 2022

DIA DO BEIJO 13 de abril

 BEIJOS 

 Os beijos são a prova ontológica

da existência da boca e dos lábios.
São pedaços de sonhos
que matam a fome de afeto,
primaveras prometendo as cerejas
e as viagens dos pirilampos em maio,
verões quentes de frescos gelados,
corações acelerados
nos corpos enamorados.
São outonos vivos de laranja e vermelho
enquanto o tempo se vai tornando velho,
invernos de neve branca e pura,
que nos levam a tremer de ternura.
Sem mais delongas, gostaria de concluir,
crendo que é essa a nossa vontade,
fica decretado que é proibido proibir

beijos de amor e de amizade.  

©PR  


Nota:  

Um dos beijos mais célebres e que impregna a nossa cultura, de profunda influência cristã, é o beijo de Judas, como toda a gente sabe. 

Na Bíblia, no evangelho segundo Mateus, capítulo 26, diz-se:  

«E enquanto Jesus falava, eis que Judas, um dos doze, chegou e com ele uma multidão numerosa com espadas e paus, enviada pelos sumos sacerdotes e anciãos do povo. O traidor dera-lhes um sinal, dizendo: “Aquele que eu beijar é ele: prendei-o.” E dirigindo-se de imediato a Jesus, disse: “Saúdo-te, Mestre. E beijou-o. Jesus disse-lhe: “Companheiro, a que vieste?” Então avançaram e deitaram as mãos a Jesus e prenderam-no.» (1) 

É o beijo da traição que levou, mais tarde, Jesus, à crucificação, por isso agora vivemos o tempo da Páscoa. Embora este seja o mais célebre, existem outros que marcaram a história e o nosso imaginário, o beijo de Klimt, o beijo de Rodin, o beijo da Bela Adormecida, o beijo de “E tudo o vento levou”, o beijo de “A dama e o vagabundo”, o beijo de “Titanic”, os beijos de "Cinema Paraíso"...

 

(1) Bíblia, Vol. I, Novo Testamento, Trad. de Frederico Lourenço, 2016, Quetzal, p. 146 




sábado, 26 de março de 2022

OURO


Na luz que nos dá o Sol 

há as cores do arco-da-velha

e um mítico pote de ouro 

inalcançável. Ainda bem. 

O rei Midas, tão ganancioso,

foi dotado pelos deuses,

a seu pedido, com o poder 

de transformar em ouro

tudo o que tocava.

Arrependeu-se  ao prever

que apenas  a sua morte conquistaria,

o ouro não se come nem se bebe.

Apolo, de inteligência luminosa,

concedeu-lhe o que merecia,

que lhe crescessem 

umas orelhas de burro

para toda a eternidade.

Aprendemos assim,

que para  viver em sossego,

basta sentir e contemplar 

a beleza das cores,

e deixar o ouro em paz.