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sábado, 26 de março de 2022

SUGESTÃO

 Façamos uma longa marcha 

pelo reconhecimento  do valor do Sol, 

da Lua e de todos os astros, 

pois cumprem as elegantes leis

do universo, sem hesitar, sem guerrear. 

Saibamos ser marés, oceanos,

montanhas, planícies, sem ganâncias.

Desejemos, com  intensidade,  

acolher e entregar, simplesmente, 

como a foz dos rios, 

cantar, como as aves nas árvores,

sorrir, como os girassóis

embevecidos com o azul do céu

orgulhoso das nuvens algodoadas.

Aprendamos a respeitar 

as leis da natureza.

Assim, calaremos as armas, 

exterminaremos as mentiras e as perfídias, 

cumpriremos a abolição da miséria

e das modernas escravaturas,

praticaremos os decretos

da verdadeira democracia.


sexta-feira, 18 de março de 2022

DIA DO PAI - 19 de março

Quantas vezes percorres 

os caminhos do meu pensamento?

Nem sei, já lhes perdi o conto,  pai.

Passeias comigo tantas horas, 

tantos dias, nas mais vívidas memórias.

Tens sido a minha âncora em muitos momentos, 

principalmente nos mais espinhosos,

naqueles dias penosos em  que o sol não nasce,

naquelas noites em que a lua chora de saudade 

por já teres partido, 

aqueles das angústias existenciais: 

sou ou não sou, faço ou não faço, 

quero ou não quero?

Naqueles dias de tempestade 

à procura do porto de abrigo,  

estás sempre comigo.

Como é simples, na tua companhia, 

resolver as dores da alma

quando, na maior das agruras, 

perdido no oceano das dúvidas,

pergunto: o que farias,  pai,

se estivesses aqui e agora no meu lugar? 

Conhecias-me  a mim e aos manos,

mais do que ninguém,

assim como o grande amor da tua vida, 

a minha mãe.

Tentei, enquanto jovem, 

compreender os teus preceitos,

as tuas forças, a razão do teu viver, 

a intenção dos teus projetos.

Deixaste-nos demasiado cedo,

tinha ainda tantas perguntas para te fazer,

contudo não te foste embora,

vives comigo a toda a hora,

afinal sou uma bocadinho do teu futuro,

um reflexo da tua estrela,

procuro transportar no meu corpo 

a ternura dos teus gestos

e respeitar o teu lugar à nossa mesa.

Descobri contigo, na tua célere passagem,

o valor dos mistérios insondáveis da vida,

a veemência no cuidar de quem precisa,

o respeito pela natureza,

o sentido de estarmos aqui, uns com os outros,

aprendendo a viver juntos,

combatendo a melancolia, construindo alegria.

Ensinaste-me o maior preceito 

que alguém pode desejar aprender:

não desistir de nada do que é essencial e verdadeiro,

fruir a vida com o propósito de contribuir 

para a maior riqueza e felicidade do mundo.

Muitas sementes lançaste à terra, 

imensas árvores plantaste,

com carinho, dos animais cuidaste.

Calcorreaste os campos, lavraste muita terra,

regaste muitas plantas, colheste tantos  frutos.

Respeitaste  os amigos, a família e  os demais, 

com uma verdade tão simples

como a das nuvens ao serem apenas as nuvens do céu.

O Deus em que acreditavas,

sumamente bom, compreensivo,

misericordioso, motor de toda a justiça,

fundamento de toda a existência

e de toda sabedoria, dava-te a força

e o norte para segurares o leme da vida

no sossego da alma 

que te permitia sonhar e cantar.

Como ecoa ainda a tua voz  de barítono

no canto espontâneo de esperança 

na capela da aldeia onde cresci 

e onde iniciei os meus sonhos:

"eu sonho que a minha gente 

será semente da eterna paz".

Procurarei, como me diz o sentido, 

e na senda do teu querer,

sempre e em toda a parte, 

meu querido Pai, continuar-te.









terça-feira, 8 de março de 2022

mulher

Mulher mãe, mulher filha,

mulher operária, camponesa

mulher coragem, mulher afoita

mulher poeta, mulher resistência

mulher bonita, mulher doce,

mulher médica, professora, guerreira,

mulher dirigente, mulher vigilante,

mulher timoneira, mulher democracia,

mulher assertiva, mulher amante,

mulher madura, mulher atleta,

mulher justiça, mulher irmã,

mulher avó, mulher memória,

mulher flor, amor perfeito, margarida,

mulher selvagem, mulher bondosa,

mulher primavera, mulher perfume,

mulher áfrica, mulher europa,

mulher américa,  oceânica, oriental,

mulher sul, norte, leste e oeste,

mulher olímpica, mulher chama,

mulher deusa, mulher revolucionária,

mulher de todas as cores, mulher vida,

mulher que não desistes da igualdade,

mulher que insistes na fraternidade,

mulher de corpo inteiro, mulher musa,

mulher generosa, mulher humilde,

absolutamente livre, simplesmente mulher.

Continua assim, mulher arte,

pelejando contra os fantasmas, 

os preconceitos, os estereótipos e  as quezílias, 

contra todas  as guerras, buscando o respeito universal

em todas as latitudes, em todos os cantos e recantos

do mundo e serás sempre mulher, a mulher criadora,

a mulher discreta que cativa, que acalma, 

que canta e que protege, a mulher terra,

a mulher forte que agora e sempre merece

todas as vénias, todas as celebrações, 

toda amizade e todo o amor do mundo.






segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

ENIGMA

A rocha calcária
com corpo de leão
e cabeça de faraó Quéfren,
junto às pirâmides de Gizé,
é tão misteriosa
como a esfinge do Édipo-Rei,
por ela se revela a absurdidade da vida.
Na tragédia de Sófocles
o filho mata o pai e casa com a mãe,
só por decifrar o enigma,
como se o conhecimento
fosse um ensaio para a cegueira,
destino prévio à morte.
©PR



quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

FLORES DE CAMPO MAIOR

 

As flores de Campo Maior

são as que nos fazem sorrir,

feitas de suor, arte e amor,

todos as querem ver florir.


Campo Maior, jardim encantado,

onde se constroem sonhos e vidas,

qual novo mundo alcandorado

de  maior valor que as sete partidas.


Chão de humilde e hábil gente,

de trabalho, dedicação e alegria.

Aqui, fácil é andar contente,

Cá  viver e morar, é uma regalia.


Nesta terra nascem flores

Só quando o povo quer,

desabrocham saias e amores

que fascinam quem cá vier.


Representando a  humanidade,

património cultural imaterial,

dizemos agora, com vaidade,

grande orgulho para Portugal!





quinta-feira, 14 de outubro de 2021

DIA INTERNACIONAL DA MULHER RURAL

(15 DE OUTUBRO)

Neste dia, que é mais um, entre muitos outros, que nos podem fazer refletir sobre causas e problemas, independentemente de concordarmos ou não com dias para isto ou para aquilo, faz sentido pensar sobre o tempo e sobre o trabalho em que se encontraram e se encontram muitas mulheres.

Ocorreram-me a este propósito duas obras de arte que nos fazem pensar sobre o tema em questão, uma pintura e um filme.

As Respigadoras - é uma pintura a óleo sobre tela do pintor francês Jean-François Millet de 1857 que se encontra no Museu de Orsay em Paris.


O quadro representa três camponesas ao respigo de espigas de trigo caídas no chão após a colheita. A pintura tornou-se famosa por apresentar de forma simpática as que então eram as camadas mais baixas da sociedade rural, tendo sido mal recebida pela alta sociedade francesa da época.
(Fonte: Wikipédia)

Este trabalho de andar ao respigo (rabisco) parece ser só dos séculos XIX e XX, mas talvez não seja assim exatamente.
Veja-se, por exemplo, a imagem seguinte, baseada na pintura que referi, do século XIX:

Fonte: Blogue "Geografia Hoje"

Há um filme, "Os Respigadores e a Respigadora" (Les Glaneurs et la Glaneuse) de Agnès Varda, sobre os respigadores da sociedade contemporânea, pessoas que se dedicam a recuperar e a reciclar sobras e detritos que outros deitam fora, que nos interpela vivamente sobre estes fenómenos contemporâneos. Obteve inúmeros prémios, entre os quais se destacam o de melhor documentário dos prémios europeus, melhor filme pelo sindicato francês dos críticos de cinema e o Golden Hugo para melhor documentário no festival de Chicago, no ano 2000. Creio que vale a pena vê-lo ou revê-lo.
Isto a propósito do fenómeno do êxodo rural que se mantém e que não resolve nenhum problema de fundo, nem daqueles que saem das terras do interior nem daqueles que vivem no litoral, antes agrava os problemas de todos, nomeadamente os ecológicos e do planeta.
Muitas das gentes, principalmente mulheres, que vão para as grandes cidades, principalmente no litoral, são pessoas de fraca qualificação profissional e que enfrentam grandes dificuldades para conseguir um trabalho digno e bem remunerado. Como se sabe, só o Alentejo, por exemplo, perdeu nos últimos dez anos 7% da sua população, em grande parte pelo êxodo também rural. Só houve um concelho, dos 47 da região Alentejo a ver um aumento da sua população, também pelas más razões conhecidas do grande público, pessoal imigrante de países subdesenvolvidos para trabalho escravo e sub-humano para culturas intensivas e superintensivas no concelho de Odemira.
Esta é uma tendência que parece não ter fim. Até quando? 
Será que as pessoas acordam e se opõem a isto, criando condições para que haja uma distribuição equilibrada da população em harmonia com a cultura, com a tradição e com as paisagens tradicionais? Quando será possível viver bem e ter acesso ao essencial em qualquer lugar do nosso país e do mundo? O que é necessário fazer? 

Ficam as perguntas, no entanto creio que as respostas, para além de serem políticas, tais como as questões, terão de ter por base uma inspiração fortemente verde e de esquerda, responsável e solidária, cujas soluções ainda não foram globalmente experimentadas.









quinta-feira, 26 de agosto de 2021

IGUALDADE FEMININA

“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade”, afirmou José de Almada Negreiros em "A invenção do dia claro", em 1921.

Para que a igualdade das mulheres, cujo dia hoje celebramos, seja uma realidade, podemos dizer o mesmo. Só falta mesmo é garantir, de facto, a igualdade na prática, só falta mesmo, salvar as mulheres, a igualdade feminina. Em muitos países do mundo, nomeadamente no nosso, essa igualdade já está na lei fundamental, mas não é cabalmente cumprida.
Para combater as desigualdades não basta apregoar que as desigualdades devem ser combatidas. É preciso muito mais do que isso. É preciso partilhar responsabilidades e tarefas, garantir os salários com equidade, não permitir que um homem, só por ser homem, ganhe mais do que uma mulher, no mesmo trabalho, nas mesmas funções. A igualdade fundamental, mas não única, é a igualdade económica, só ela permite a emancipação da pessoa, seja ela homem ou mulher. O salário emocional ( o elogio, o reconhecimento, o afeto positivo) também deve ser equitativo e basear-se no princípio da igualdade. Este princípio afirma que ninguém é superior ou inferior enquanto ser humano, enquanto pessoa. Toda a gente é pessoa, como por vezes se diz. 
Este princípio é um imperativo ético e moral que reconhece e confere dignidade a todo e qualquer ser humano, seja homem, mulher, masculino, feminino, heterossexual, LGBTI ou o que quer que seja…

  No Afeganistão, de que tanto se fala agora,  a desigualdade é tão grande, abominável e  horrenda, que até se nega às mulheres o direito de existir. A burca, veste comprida que envolve todo o corpo, dos pés à cabeça, com uma abertura rendilhada à altura dos olhos, usada em público por muitas mulheres muçulmanas, é uma das formas de  negação da existência e, por conseguinte a negação absoluta de quaisquer direitos de quem a usa.
 
Apesar de nós, portugueses, felizmente, não vivermos num regime desta natureza, ainda há hoje, no nosso país e eventualmente  na nossa terra, muitas mulheres que se sentem mulheres coisificadas, mulheres objeto, tal como a Luísa no poema de António Gedeão "Calçada de Carriche", que "Saiu de casa / de madrugada; regressa a casa / é já noite fechada." (…)
Poderíamos tentar enumerar algumas das mulheres que se destacaram com a sua coragem, tenacidade, criatividade e amor, exemplos para a humanidade: Hipátia, Joana d'Arc, Dandara, Marie Curie, Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Rosa Luxemburgo, Maria Lamas, Beatriz Ângelo, etc.. A lista seria interminável, porque de facto  houve, há e certamente haverá muitíssimas mulheres que são exímias como seres humanos, desde logo, porque muitas delas são mães.  Nessa lista está a mãe de cada um de nós,  a melhor mãe do mundo, como não nos cansamos de sentir e de repetir.
Ser mãe é ser uma força da natureza, é agir sempre, a toda a prova e em todo o lugar,  de acordo com um amor gigante e incondicional.

Sabemos dos estereótipos e dos preconceitos sobre o feminino e às vezes, nós, homens e mulheres, quase que somos levados por eles em momentos de fraqueza e de estupidez, por isso nunca é demais combater a todo o momento tudo o que se opõe à igualdade feminina: a exploração económica e  sexual,  a coisificação das mulheres, o assédio, o medo, todas as formas de violência física e psicológica, todas as ameaças, todas as prisões.

Termino com uma frase de uma grande mulher, Rosa Luxemburgo, (1871 -1919) que é um apelo a todos para que não se imobilizem, para que se ponham em movimento lutando pela dignidade humana, que é também a dignidade da Mulher: "Quem  não se movimenta, não sente as correntes que o prendem". Vivam as mulheres de todo o mundo!