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terça-feira, 30 de julho de 2019

pesadelo


Assombra-nos a guerra, 
cume de toda a imoralidade.
Violentos  e artificiais vulcões,
carregados de infâmia, rasgando
montanhas ululantes de pássaros feridos
despedaçam-nos o coração.
A grande mão invisível
obriga o sangue a galgar das veias,
varre toda a beleza, 
exclui todos os sorrisos,
arrasa todo o sentido da vida e a morte.
Neste jogo, incrédulos, 
caem-nos em cima perguntas sem resposta.
A consciência mergulha
num mar pérfido e tenebroso sem fim,
exala, como medusa implacável,
um cheiro entranhado 
de apocalíptico desânimo.

Não valeria muito mais, senhores generais,
assumirmos o mistério que nos elegeu
e deixar-nos embalar solenemente
pela elegante harmonia das esferas celestes?




sexta-feira, 15 de março de 2019

fevereiro

Fevereiro, 
pequeno,
verdadeiro, 
como quem diz 
e vive a vida.
Não se mede aos dias,
como os homens 
não se medem aos palmos.
A grandeza das suas horas
torna impossível 
a nossa solidão.
Planeta anão,
mas de deusas rodeado.
Água de fevereiro 
mata o onzeneiro.
Pois que caia, 
que tanta falta faz,
que o mate, 
para que o mundo 
não seja imundo. 





sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

2022


Como uma gaivota solitária
condenada a ser livre,
numa praia de fina areia,
marcando efémeras pegadas
perante o poderoso oceano,
assim me parece o ano novo.

Assim, respiro, 
por antecipação, 
o ar da primavera 
enquanto a esperança 
desfralda a bandeira
do amor e da paz.

Está aí um novo tempo,
pois que seja excelente
para que valha a pena.








domingo, 29 de julho de 2018

Viagem

Habitamos um planeta  
que se desloca, em cada hora que passa,  
à volta do sol, a cento e sete mil quilómetros 
e, sobre o seu próprio eixo,
na região do equador,
a mil e setecentos quilómetros.
A Terra acompanha todo o sistema solar, 
em direção ao centro da galáxia, 
a cerca de um milhão de quilómetros por hora.
Somando estas distâncias, 
obtemos o belo resultado de um milhão 
cento e oito mil e setecentos quilómetros.
Numa hora apenas!
E sem pagar bilhete.
Não nos podemos queixar  
de viajarmos pouco.
Vale sempre a pena fazer contas à vida.
Descobrimos que somos grandes viajantes e,
queiramos ou não, percorremos juntos o universo.
Já que é fácil reconhecê-lo,
porque não fazê-lo de mãos dadas?



quarta-feira, 25 de julho de 2018

Intervalos


Somos intervalos entre dois momentos: 

nascimento e morte.
Antes e depois só o tempo infinito.
Verdade? Talvez ilusão.

Quantas atrocidades já se cometeram 

em nome da verdade?

Quantas vidas se ceifaram, 

quantos livros se queimaram,

quantas crianças não chegaram a ser meninos,

quantas florestas arderam,

quantos amores se desencontraram,

quantos paraísos se perderam?
A verdade, mesmo ilusão
não é  como as outras,
pontualmente pode ser  correta.

Mostra-nos o infinito do que há em nós.

Dá-nos no momento preciso e de mão beijada
a consciência da nossa infinita pequenez.


terça-feira, 3 de abril de 2018

A COR DO AMOR


O amor é da cor 
do chocolate surpresa 
aveludado como a tua pele.
É amarelo vivo 
seara de vento,
azul pássaro 
na crista do dia.
É verde pérola 
como as ondas do mar,
vermelho romã, 
vermelho paixão, 
vermelho pôr-do-sol.
É da cor da caminhada,
a quatro pés,
em baixo relevo esculpida
na areia  branca de espuma,
da cor do arrepio  
ao final da tarde
à hora das gaivotas.
Cristalino como a sublime 
visão do horizonte 
no incomensurável brilhozinho
dos teus olhos 
quando a noite amanhece.
É  da cor do verso branco
encarnando a liberdade
e do beijo inevitável,
sonhado e realizado.
É o amarelo sombra das mãos
enlaçadas sob o sol
que adivinha a primavera.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Sagração da primavera


A primavera merece 
a sagração incondicional,
justifica-se porque é tão bela 
como o brilho dos olhos 
espantados pelo azul 
do mar, do céu, das estrelas 
e dos amores perfeitos,
aturdidos pelas infinitas cores 
de outras inefáveis flores. 
A primavera é tão vivaz 
e incrível que até assusta,
transporta-nos às origens
e faz-nos respirar o silêncio
dos elementos primordiais, 
terra, água, ar e fogo.
A primavera é o pináculo 
da existência, do sentido de tudo,
ela é a parte visível da beleza
que sustenta a vida, 
a expressão das fundas raízes
que lutam na clandestinidade
para que a beleza seja de todos.
A primavera merece todos os ídolos,
todos os deuses e deusas
preces, rituais e celebrações.
A primavera é a epifania
da natureza pura 
e não tem explicação,
é a razão de ser do próprio coração.
©PR