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domingo, 29 de outubro de 2023

14 de julho

Hoje há tanta claridade
no ar e um azul tão solto
e inconfundível
que sou dado a sentir,
a partir do verde movimento
dos braços das árvores,
o brilho e a obscuridade,
como ideias que me fustigam.
Assim nasce-me
a vontade de ler palavras
que nunca li
e de ver paisagens
que nunca vi,
só para fruir o jogo de luz e sombras
e atingir o cansaço alegre
das crianças quando decidem
finalizar o jogo do sério.

AMIGO

Para ti há sempre
pão quente, queijo
e doce de mirtilos,
melão com presunto,
vinho branco fresco,
cerejas, pêssegos e melancia;
são víveres que apreciamos.
Procuro uma taça
para guardar
todos esses sabores
com um abraço infinito.
É a taça da amizade,
encontrei-a,
segura-a com cuidado,
meu amigo.
É feita do desequilíbrio
necessário e suficiente
dos ângulos das nossas vidas,
das desventuras partilhadas,
das surpresas conquistadas.
Guarda-a como um tesouro,
tem lá dentro a interseção
das nossas memórias
e o nosso sangue a pulsar
alegria para toda a eternidade.

NATUREZA MORTA

As frutas adormecidas
no baloiço do tempo
serão tragadas
numa hora desconhecida
e a fruteira restará vazia.
Não têm sistema nervoso
mas sim casca como pele.
Nasceram, vivem e morrerão,
tal como nós, dentro da película fina
ou cascuda que nos envolve.
Cumpre-se a natureza
enquanto nós, como jovens
a tentar mudar o mundo,
esgrimimos argumentos
como D. Quixote
a enfrentar gigantes.
À parte isso, com ou sem vontade,
só nos temos uns aos outros
para cumprir naturalmente
a humanidade.

LUA CHEIA

Ouvi dizer,
olha a Lua,
cresceu e agora está cheia.
Ao vê-la assim,
fico com a consciência
cheia de Lua
e isso apraz-me.
Quando era menino
disseram-me que a Lua
era mentirosa.
Não queria acreditar
porque não via lógica
na Lua como causa
e autora da mentira.
Ainda acho
que a Lua é verdadeira,
por isso identifico-a
com a verdade
e vejo-a a sorrir,
ao contrário
do que me diziam.
E apetece-me proclamar,
Lua como és bela,
leva-me contigo a passear
por esse universo fora
e a juntar o amor
e todos os sorrisos
do mundo para derrotar
de uma vez por todas,
o ódio, a perfídia e a mentira.

AGOSTO

Os rios choram paulatinamente,
os lagos sofrem todas as suas imagens,
as gaivotas pensam o sacrifício dos peixes,
as feras sonham com as suas presas,
os vulcões esperam pacientemente
pela hora de expelir a lava ardente,
os marinheiros alimentam a expetativa
dos ventos alísios e do seu ímpeto
de leste para oeste
à procura de um mundo novo.
Em agosto toda a fruta tem gosto,
não percamos da vida a esperança,
depois da tempestade há-de vir a bonança.

GATOS

Meigos e selvagens,
assertivos e determinados,
altivos e fofinhos,
os gatos, joias da criação,
merecem toda a admiração.
Quando os alcanço ao sol
no tom da sua calma,
usufruo da argúcia
dos seus finos olhares.
Se não são felizes, parecem-no,
por isso gostamos deles,
respeitam-nos sem ressentimentos,
não nos cobram tristezas
e fazem-se respeitar
mais do que alguns humanos,
por isso têm sete vidas
e nós só temos uma.

FOTOGRAFIA

Pelos nossos olhos passam imagens,
verdadeiras ilusões de óptica,
não são uma cópia
perfeita da realidade
mas permitem-nos entrar
no mundo dos sonhos.
São estes que nos garantem
as surpreendentes viagens
da vida e as emoções,
tanto as fáceis como as difíceis,
que configuram a nossa essência.