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quarta-feira, 8 de julho de 2015

teseu

tenho a impressão
imprecisa
cinzenta e parda
de que o mundo não é
como o vejo 
poderá ser outra coisa
talvez uma força escondida
fantasma
serpente que desliza por entre os tojos
sem ser vista, 
escorpião
que ferra tenazmente quem o pisa
que escapa como uma enguia
das mãos do pescador
ocultada pelos batons
esmaltes e macarons
chaneis e ferraris blaks
a realidade não fede
simula, reflete-se
no espelho do mundo
engoda e espanta
no sono e na vigília
no amor e no ódio
no estertor e nas horas
felizes da vida

procuro-a
às voltas
no labirinto do minotauro
qual teseu desmemoriado
pelo amor ofuscante de ariadne

roseira

A roseira da casa onde moro
dá-me rosas sem eu as ter pedido,
vermelhas cor de vinho maduro frutado,
de pétalas frondosas, luminescentes.
Apenas a plantei e lhe mato a sede
quando o vento norte seca o ar.
A roseira deste pedaço de planeta,
assustadoramente bela, sorri-me.
Dá-me a verdade também feita de espinhos,
mesmo assim também a quero.
A roseira invade-me de ternura,
apraz-me até na dor, por isso sonho-a, 
e com tímidos sorrisos me desperta.
Nos dias de folga da minha alma,
a minha amiga roseira e suas rosas
fazem comigo viagens estéticas,
obrigam-me a desenhar palavras,
pétalas, rosas, roseiral, amor.

corpos

branca escura
a luz que desenha
os teus olhos
brilhantes

pálidos os raios de sol
que penetram a tua pele
suave como o colmo
da cabana e do amor

belos os teus seios
que dão toda
a macieza necessária
à dureza dos corpos

águas de março


Cai a chuva finalmente,
e a terra sôfrega agradece.
As árvores das nossas ruas,
contentes, algumas ainda nuas,
dançam ligeiras festejando
ao sabor do vento.
Com esta dádiva do céu 
as acácias irão florir
e as açucenas 
cumprimentar-nos-ão.
Anteras, estigmas, 
ovários, estiletes,
sépalas verdes 
e pedúnculos florais,
transportarão as fragrâncias,
de mil plantas e flores,
de todas as cores 
e formas originais.
Vivam estas águas
que nos afogam as mágoas,
viva a verde esperança, 
olhar de criança, 
liberdade, amor e confiança.
Soubesse a humanidade 
imitar o cuidado  da natureza
e  seria tão bela a Primavera, 
também dos povos, com certeza.
©PR

diamante

encontrei no ocaso
de uma rua estreita
um diamante em estado bruto
pesado e brilhante, tão verdinho.
fiz-me aprendiz de faroleiro
passo o tempo polindo polindo
puxando o lustro com o pano de seda
que me emprestaste
e vejo cada dia que passa
cada noite que se fecha 
no quarto das traseiras
do hotel babilónia
mais uma luzinha faiscando
Bolero de Ravel pela orquestra de Filadélfia
(estou agora a ouvi-lo)
ou pérolas em comum, 
Fome de Hamsun.
pulo de corpo inteiro
num polimento sem fim
e vou polindo o diamante que encontrei
projeta chispas na noite.
agradeço infinitamente os teus olhos.

epifania

sempre que trocamos palavras
querida, tocamos o infinito 
onde nasce a ternura da voz 
e a fluidez suave do mel florido
primavera da poesia
que das raízes desponta,
epifania do nada que tudo é.

O fundamento não existe

As distantes galáxias,
a via láctea e suas miríades de astros,
o sol que nos ilumina e os planetas mais próximos,
a sequoia de Serralves e as oliveiras do Alentejo,
a lagoa de Óbidos e as serranias do nordeste,
os peixinhos vermelhos nos aquários,
as cidades fervilhadas pelo stresse,
as rosas vermelhas de cetim e perfume de amor,
o Nilo a esconder as lágrimas no Assuão,
as múmias do museu britânico roubadas ao Egipto,
o friso do Pártenon subtraído à acrópole de Atenas,
o mar adentro dos teus olhos,
os filhos desejados, os jogos de toda a sorte,
as viagens imaginadas aos confins do mundo,
as filosofias, as religiões, todas as artes,
D. Quixote, Rocinante, Sancho Pança, Dulcineia,
a ilha dos amores e os deuses,
o cântico dos cânticos,
as montanhas russas virtuais,
a quinta sinfonia em dó menor opus sessenta e sete.
Tudo imerso numa onda infinita,
tudo remexe ou repousa, tudo cai ou se eleva,
tudo vagueia sem saber porquê ou para quê.
Tudo procede do nada
e incessantemente se desdobra 
nos mais incríveis adejos
em busca do princípio da razão suficiente
na zona da essência do fundamento
que não existe!